Uma festa para explicar a hospitalidade napolitana

Tammurriata no 3 Maggio (Foto: Antonio Angri)

Era um convite tão fora da minha realidade que de início confesso que pestanejei. Masulli havia lançado a ideia e, no fim das contas, resolvi por aceitar. Na véspera da Festa della Madonna di Castello eu entrava em seu carro rumo a Somma Vesuviana, cidade vizinha a minha e que está aos pés da montanha de mesmo nome. A subida a Somma seria feita nas primeiras horas do dia, por isso a solução deste meu amigo foi pernoitar na casa de seus pais e pegar uma carona com sua irmã – a hospitalidade napolitana nessa história começa (mas não para por) aqui.

Pouco depois das 7h eu era apresentado a Antonio Angri, fotógrafo local que tem uma vida devota ao registro de eventos religiosos. Na base da montanha, nos preparando para subir, veio dele uma pergunta que já haviam me feito antes ao longo desses três meses morando na região de Napoli, no sul da Itália (e que por isso interpretei como corriqueira): “Mas Napolitano mesmo você não entende, né?”. O riso nervoso de quem ainda engatinha para falar o Italiano fez com que Antonio completasse: “Italiano é uma língua estrangeira para a gente”.

Os bancos da picape se preencheram e da caçamba vi ficar para trás a primeira metade do trajeto, que cortava a mata de um verde vivo. O restante, feito a pé, não demorou muito mais do que uma hora. Uma caminhada especialmente extenuante pela trilha íngreme e de solo pouco firme de terra negra, lembretes de que aquele era um ambiente de atividade vulcânica. A chegada ao ponto mais alto dos 1,132 metros de Monte Somma era anunciada, grupo a grupo, com o estampido de bombas lançadas em um cano de ferro, ali instalado justamente para melhor propagar o som.

A primeira meia hora foi reservada a contemplação. A posição centralizada de Somma em relação a face norte do Vesúvio e o fato da montanha ser 149 metros mais baixa que o vulcão criam um cenário de imponência que tem tudo a ver com a festa. De origem pagã e absorvida ao ideário católico local, a celebração do fim do inverno e início da primavera é a aceitação de que há forças na natureza que transcendem o trabalho humano. Pelo bem da colheita que se aproxima, então, é melhor rezar.

MADONNA

As preces são dedicadas a Santa Maria a Castello, venerada na região depois que sua imagem sobreviveu a erupção de 1631. A história conta que do desastre restou apenas a cabeça da santa. Após anos de espera, a entidade teria clamado pela conclusão do trabalho de restauração e retorno a Somma. Para chamar a atenção do negligente restaurador incubido da missão, a Madonna fez sua filha enferma voltar a andar.

Deste então Somma guarda a santa – a versão original na igreja da cidade e uma réplica no topo do monte. Em sua homenagem, anualmente a população local festeja na montanha em três datas diferentes: Sàbbatö de ‘e fuòchë (primeiro sábado pós-Páscoa), 1º de Maio e 3 de Maio. Foi no último dia 3, no encerramento das comemorações, que estive presente.

Eram exatas 9h53 quando me deram o primeiro copo de vinho. “Pizza piena” (um pão com recheio de queijo e salame feito em forno a lenha) e ovo cozido acompanhavam. Nas rodinhas de conversa, relatos de festas passadas, da origem da devoção à Madonna e também interesse em saber a minha história – algo que traduzi como uma forma educada e natural de me integrar ao ambiente.

As badaladas de um sino pediam que todos se reunissem em frente à capela. O templo, que já é pequeno e simples desde a primeira vista, ficou ainda mais tímido diante da centena de homens em prece. “A mãe é aquela que nos resguarda e nos protege”, disse o padre sobre a homenageada do dia. Acrescentou que a jornada era a chance de retornarem transformados (“mas não só por causa do vinho”, brincou). Com a missa rezada, abriu-se então caminho para outras formas de comunhão.

TAMMURRIATA

Os primeiros tons no acordeon indicavam que a música, a partir de agora (e até o anoitecer), seria a protagonista. Cito aqui o acordeon porque foi o primeiro som que consegui reconhecer. Acompanhado dele estava uma seleção de instrumentos que eu jamais havia visto e que davam traços únicos aos cânticos.

Jovens e adultos preparavam a tammurriata, o estilo de música que é trilha das festas napolitanas. Um pandeiro de proporções muito maiores às quais nós brasileiros estamos acostumados é o instrumento em maior número. Chamado de tammorra, as batidas em seu couro, por vezes forte, por vezes suave, marcam o ritmo da cantoria.

Há também as versões napolitanas dos chocalhos. O triccabalacche une três séries de soalhas em forma de W. O ritmista choca as hastes laterais com a do meio para reproduzir o som, que acompanha as tammorras. A forbice tem esse nome pelo formato de tesoura e funciona de forma similar, chocando uma ponta a outra para vibrar as soalhas.

Completa o círculo uma flauta doce convencional e o putipù, uma cuíca que difere da brasileira por ter a haste para fora. Seu som em nada se assemelha a cuíca, aliás. O esfregar do bastão é grave e pausado, mais parecendo um ronco. Com castagnetti (castanholas) em mãos, há também os que se reservam a arte de dançar a tammurriata.

Sendo uma festa criada pelos agricultores da região há cerca de 370 anos, a tradição faz deste um evento majoritariamente masculino. Não é nada imposto ou exclusivo, há algumas mulheres, mas a elas cabe, quando muito, o espaço da dança. Muito raramente empunham instrumentos. Não cheguei a testemunhá-las puxando o canto.

O dançar da tammurriata é algo tão peculiar quanto os instrumentos que a compõem. Sem encostar entre si, duplas se entrosam em uma sequência de movimentos puxados por um condutor (em geral o mais velho). Homem com homem, mulher com homem, mulher com mulher, é indiferente. As mãos ao alto batem os castagnetti e dão suavidade ao movimento do corpo, que é complementado por um jogo de pernas marcado pelo ritmo das tammorras.

Entre estrofes, a batida se acelera e as duplas operam um movimento diferente. Que pode ser um passo em que ambos se dão as costas e alternam os lados para onde mãos e castagnetti vão. Ou outro que envolve um giro com pernas entrelaçadas. Há outros tantos movimentos.

A música, sempre entoada em Napolitano antigo, trata tanto da devoção à Madonna quanto da conquista da mulher desejada. Há um puxador do cântico, que varia de hora em hora. Além de seguir a letra da música, o cantor do momento também improvisa homenagens a pessoas próximas do grupo e faz as vezes de solista com performances que se assemelham em muito aos chamados para reza de mesquitas.

PARANZA

Não há uma associação única que organiza a festa. Na prática, cada um celebra da forma que lhe cabe. Grupos de adolescentes, por exemplo, carregam suas bebidas e lanches e fazem piqueniques no topo do Monte Somma. A parte mais estruturada do evento, a que promove a música e fornece comida, é feita por grupos chamados de Paranzas. Em geral moradores do mesmo bairro que se reúnem, cantam e cozinham para si próprios – ou seja, a minha presença ali só foi possível por estar acompanhado do fotógrafo Angri. Acompanhei a festa com La Vecchia Paranza del Ciglio, criada na década de 70 e mais antigo dos cinco grupos ativos atualmente.

Além do desjejum com vinho já citado, houveram outros três momentos gastronômicos no “barracão” da Paranza. Logo após a missa, com pão, queijo, prosciutto, muçarela de búfala e alcachofra cozida. Outra hora um spaghetti alle vongole (massa tradicional na região de Napoli feita com molho de amêijoas). E um churrasco de bisteca suína e frango.

Há uma evidente preocupação em passar à frente o legado. Apesar de haver diversos anciões no grupo (na cozinha, por exemplo), muitos jovens adultos já têm papel central na organização da festa. Os pequenos não ficam de fora e ganham instrumentos menores ou mais leves para que possam acompanhar com todos a música. “É uma festa de fazendeiros e há cada vez menos deles na região. Quando eles acabarem, acaba a festa”, disse Angri. Por quê? “Sem conexão com a terra, essa festa não existe.”

O FIM

Ao fim do dia as Paranzas começam a descer os mil metros do monte. A festa só será encerrada quando cada grupo chegar a seu bairro, mas antes disso é feita uma parada na Igreja de S. Maria a Castello. Instrumentos em punho e agora carregando uma vara de cerca de 4 metros de altura ornada com frutos e cereais plantados na região. Após outra fala do padre, bênçãos e um pouco mais de tammurriata, o grupo parte.

No trajeto de volta a casa, são feitas paradas em estabelecimentos que oferecem à Paranza água e vinho. Como agradecimento, por alguns minutos eles ganham uma tammurriata particular. Confesso que neste momento, já passando das 21h, essa caminhada final tinha ares de penitência. Eu estava exausto.

Um membro do grupo, então, me ofereceu o seu triccabalacche para que eu acompanhasse a tammurriata ao longo do percurso. Rolaram algumas dicas, conselhos e risadas com minha performance até que nos aproximamos do destino final. “Agora me dá aqui que tô chegando no meu bairro. Eles não podem me ver sem estar tocando”, disse sério.

Já no bairro, as varas foram presenteadas a figuras femininas da comunidade. Paradas em suas varandas, as senhoras ouviam orgulhosas as homenagens. Mais orgulhosas ainda recebiam o pesado presente e o carregavam para dentro de suas casas.

Cessada a tammurriata e após aplausos, a Festa della Madonna di Castello deste ano havia sido encerrada. Me aproximei de Nicola, um dos organizadores que havia aberto as portas de sua Paranza para mim. Quis agradecer pela hospitalidade. Parte dessa hospitalidade, aprendi, envolve em bem receber sem esperar nada em troca. Nicola recusou meu obrigado. “De jeito algum, você é nosso convidado.”

* As imagens que abrem e fecham o texto são de Antonio Angri. Para conhecer mais sobre o trabalho do fotógrafo, acesse o link.

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Milaneses e a cidade de Milão

O verde é constante em Milão, principalmente em áreas residenciais

Não foi uma escolha minha o roteiro ser dessa maneira, mas essa recente visita à Itália me proporcionou um itinerário interessante. Desembarquei do Seabourn Ovation em Veneza, uma cidade estritamente turística, e rumei para Milão, de onde meu voo de volta sairia e na qual o Turismo é apenas uma das facetas da cidade.

Esse paralelo entre os dois locais foi instantâneo. Primeiro porque a experiência inicial em Veneza foi um tanto quanto caótica. Segundo porque cheguei em Milão no fim da tarde de um domingo, em um ambiente completamente familiar.

O hotel em que fiquei era próximo da estação Wagner de metrô, em uma área residencial por essência. Sim, havia muitos estabelecimentos comerciais pelas principais avenidas no entorno da Piazza Piemonte, mas era pelos milaneses que os bares e restaurantes estavam tomados.

Famílias inteiras, mesas cheias com amigos, uns dates, a população local aproveitava o pôr do sol tardio e o clima favorável para curtir o dia à sua maneira. Logo descobri que se tratava do l’aperitivo a Milano.

A corridinha matinal aos pés do Duomo

O ato de se reunir para um drinque e beliscar algumas delícias antes da refeição é algo tradicional da cidade. O aperitivo é religioso em Milão e usualmente acontece após o expediente – mas, como presenciei, não se desperdiça uma tarde gostosa de domingo.

Nos locais mais tradicionais (e menos pomposos), paga-se um valor um pouco maior pela bebida (paguei € 10), mas que te dá direito a um pratinho e uma visita ao buffet de petiscos. A ideia não é se empanturrar de comida e perder o jantar. A própria origem do termo, que em latim significa “que abre e excita o apetite”, deixa isso claro.

Na manhã seguinte, os milaneses novamente me mostravam como usufruem sua cidade. Saí do hotel bem cedo para visitar a Piazza Duomo, talvez o ponto mais turístico de Milão, para tirar algumas fotos.

É de se imaginar que áreas que concentram tantas pessoas, principalmente turistas, sejam evitadas pelos moradores locais – até porque eles sabem rotas alternativas para evitá-las. No início da manhã, no entanto, isso não se faz necessário.

Galleria Vittorio Emanuele em uma silenciosa manhã

A imponente fachada da Catedral e o arco de entrada da Galleria Vittorio Emanuele lá estavam, acho que até maiores pelo vazio e silêncio da praça. Mas quem também estava eram pessoas comuns, iniciando seus dias, talvez a caminho do trabalho, ou em suas corridas matinais, alguns até mesmo atravessando a galeria vazia.

Segunda cidade mais populosa da Itália, com mais de 1,3 milhão de habitantes, Milão é conhecida por ser a terra da moda e do design, além de concentrar o mercado financeiro italiano. Ou seja, apesar de ser uma indústria importante, Turismo não é sua prioridade.

Nessa minha primeira visita, pude acabar com alguns preconceitos em relação a Milão. Fiquei fascinado por sua vida cotidiana, pela quantidade de verde nas ruas e, principalmente, por enxergar como o milanês curte sua própria cidade.

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A Veneza que não é feita para turistas

A vista de Veneza e o Canal Grande na chegada pelo mar

Eu cheguei duas vezes em Veneza. No fim de tarde de uma sexta-feira, o Seabourn Ovation se aproximava da cidade que, em todo o seu esplendor, nos aguardava para dar essa primeira e encantadora recepção. A segunda chegada ocorreu no dia seguinte (e foi um tanto quanto assustadora).

Ainda no porto, ao desembarcar do navio, eu e outros hóspedes entramos num desses barcos de, sei lá, 50 passageiros, para um tour ao redor das ilhas de Veneza – passeio disponibilizado pela Seabourn em nossa despedida. Novamente, lá estava Veneza ao longe, muito formosa, com suas belas construções e um céu azul incrível.

Eu não havia nem pisado na cidade e já estava a considerando pacas gostando do que via. Eis que o tour acabou e o barco desembarcou os passageiros em plena Piazza San Marco. Se você não está familiarizado com Veneza, a praça que hospeda a Basílica de San Marco é um dos pontos de maior concentração de turistas na Europa.

A calma manhã de domingo na fondamenta Misericordia

No espaço de minutos eu tinha trombado com muita gente, topado com carrinhos de bebê, desviado de paus de selfie, dito uma porção de “não” para comerciantes e presenciado um atendimento médico na fila para entrar no Palazzo Ducale. Aquilo era um caos e confesso que fiquei assustado.

Muita gente havia sugerido que eu me perdesse pelas ruelas de Veneza, que essa era a graça do passeio pela cidade. De fato a estratégia era boa, as multidões tinham sumido e a calmaria estava, por vezes, presente. Ainda assim, eu me sentia em um “parque temático” à beira dos grandes pontos de interesse.

Para a minha sorte eu teria dois dias em Veneza e, assim, eu pude organizar melhor o meu roteiro a fim de evitar a bagunça da véspera. Foram duas as soluções para conhecer a ilha principal de outra maneira: acordar cedo e evitar o centro.

Ainda não eram 9 horas do domingo e a cidade tinha outra atmosfera. Decidi passar minha manhã na sestieri de Cannaregio, perambulando por áreas como o Antigo Gueto (morada dos judeus entre os séculos 16 e 18) e descobrindo passagens minúsculas nas travessas da fondamenta Misericordia.

Os pequenos celebram a comunhão na igreja de Madonna dell’Orto

Essencialmente eram bairros residenciais, refúgios dos pouquíssimos venezianos que ainda moram na ilha principal. Era distante da aglomeração o suficiente para que a vida existisse, para que o treino de remo acontecesse, para que primeiras eucaristias fossem celebradas. Lá eu presenciei de relance o que pode ser a vida em Veneza e isso, pra mim, valeu a visita.

Acho necessário, por fim, fazer um adendo. Não posso ignorar o fato de que eu era um turista, assim como qualquer outro, que invadia esse espaço mais “privado” da cidade. Mas eu realmente acredito que, com respeito e bom senso, é possível o convívio mútuo entre cidadãos e visitantes – sem que aqueles tenham de mudar sua forma de viver por conta destes.

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