Greve da Air France e o desafio francês

Air France começa a semana em greve prevista para durar até dia 22 de setembro. A companhia espera assegurar 40% dos seus vôos nesta segunda-feira e calcula que 60% dos pilotos aderirão a paralização. O numero de vôos cancelados pode aumentar no decorrer da semana, ou recuar dependendo das negociações.

Em jogo o plano estratégico do grupo, chamado Perfom 2020. Perform 2020 tem como base para crescimento da empresa o desenvolvimento da divisão low-cost  Transavia, hoje em perda do mercado europeu para concorrentes como Ryanair e Easyjet.

O grupo Air France-KLM conta atualmente com 102 000 pessoas em seu efetivo, sendo aproximadamente 70 mil funcionários da Air France e os demais 32 mil da KLM. A empresa sofreu restruturações frutíferas em seu ultimo plano estratégico chamado Transform 2015 obtendo com ele redução de custos e diminuindo sua divida de 6 bilhões para 4.2 bilhões!  O frutífero para a empresa com certeza foi doloroso para muitos funcionários hoje desempregados. Um plano de partida voluntária continua em andamento para os pilotos da empresa Air France.

Já para a divisão Transavia é previsto a compra de novos aviões e novas contratações, com salários mais baixos e piores condições, é claro!  Mas como se indignar com as medidas do grupo? Que empresa não deseja obter melhores resultados que os obtidos até então a Air France-KLM? De quem é a culpa se voar Lisboa-Paris e contratar pessoal de bordo em Lisboa custa mais barato que voar Paris-Lisboa com pessoal contratado na França?

Os pilotos da Air France lutam contra dois tipos de contratos para o mesmo cargo dentro da empresa e temem a deslocalização dos seus empregos em médio prazo. Justo! Porém tentar manter salários e benefícios que vem levando a empresa ao prejuízo a base de greve vai inevitavelmente piorar ainda mais a delicada situação financeira do grupo e colocar em risco mais empregos. Este é o grande desafio a ser ultrapassado pela Air France e porque não dizer por todas as empresas francesas.

Há uma total desvinculação entre o trabalhador e a sua empresa, como se o bem estar de ambos fosse paradoxal e repreensivo. O trabalhador não quer ceder e pensa poder dobrar o patronado a golpes de direitos trabalhistas adquiridos em lutas sociais históricas tais como a Revolução Francesa e após cada Guerra. O patronado por sua vez tem que rentabilizar seus negócios.

O governo atual é socialista e tenta agradar a gregos e romanos prometendo tudo a todos e não cumprindo quase nada até a próxima eleição. Em cinco anos todos eleitos aumentam suas fortunas pessoais até a vinda de outro partido que lidará com os mesmos problemas da mesma maneira. Uma coisa é certa para o governo, se a massa esta insatisfeita a culpa é do patronado. Quão conveniente!

Competividade é a palavra de ordem! Porém os contratos trabalhistas de empresas privadas oferecem as mesmas facilidades que o governo ofereceu para o funcionalismo publico em 1946. E olha que meus pais, professores do Estado no Brasil lutaram muito para se tornarem “efetivos”. Já aqui, após dois contratos de tempo indeterminado (previstos para substituições ou aumento de demanda temporária) o funcionário deve ser mandado embora ou efetivado.

O MEDEF (Sindicado Patronal) sonha com facilidades como a diminuição do teto salarial mínimo, baixa de encargos, mais flexibilidade quanto às modalidades de contratação ( ou licenciamento)  e quanto às famosas 35 horas/ semana. Abrir aos domingos aqui, por exemplo, é um sacrilégio e em caso de “pecado” é o Estado quem coleta, valores inclusive muito maiores que um dízimo.

O resultado das negociações entre funcionários e administradores da Air France-KLM pode significar muito mais do que o desfecho de uma greve, a solução deste impasse pode cristalizar o caminho que tomarão muitas empresas francesas para resolver a questão da competividade. Fiquem de olho!

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Silvia Helena

Após breves passagens pela Faculdade Metodista de São Bernardo e Belas Artes de São Paulo, aos 18 anos fui estudar no Canadá, onde vivi durante 23 anos. Lá me formei em História da Arte pela Universidade de Montréal, estudei turismo no Collège Lasalle de Montréal e no Institut de Tourisme et Hôtellerie du Québec. Comecei minha carreira na área trabalhando em Cuba. Durante os anos vividos no Canadá, entre outras coisas, fui guia de circuitos pela costa leste e abri minha primeira agência de receptivo para brasileiros. Há dez anos um vento forte bateu nas velas da minha vida me conduzindo até França. Atualmente escrevo de Paris, onde vivo e trabalho dirigindo a empresa de receptivo, a Holatour.

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