Paris para amantes de vinhos

Paris para amantes de vinhos, art de vivre & Gastronomia ou Paris para Les Bon Vivants*

Quando você pensa na França, o que lhe vem à mente? Acredito ser ponto pacífico que a Torre Eiffel é a imagem mais emblemática do país. Certamente, a Grande Dama de Ferro é um ícone universal, que evoca imediatamente a elegância e o charme da França e de sua capital.

No entanto, outras imagens surgem logo em seguida. Para os amantes da “arte de viver” ou “les bons vivants” mencionar a França é também invocar seus famosos vinhos e sua gastronomia.

De fato, a vinicultura faz parte da França, assim como a França faz parte da vinicultura. A grande diversidade de vinhedos espalhados de norte a sul do país – em regiões produtoras como Alsácia, Champagne, Borgonha, Bordeaux, Languedoc ou ainda a marítima Provença (isso para citar apenas algumas) – conta histórias de tradições e literalmente paixões através dos tempos.

parte da história FrancesA

Lembrando que já na Antiguidade, o vinho desempenhava um papel central nas sociedades grega e romana, indo muito além de suas qualidades gustativas. Entre os gregos, era um símbolo de convivência e elemento essencial nos banquetes. Além é claro, de ser a essência divina de Baco, Deus do vinho, da ebriedade e dos excessos.

Os gregos introduziram a viticultura no sul da França, especialmente na região da Provença, seis séculos antes de Cristo, trazendo diferentes variedades de uvas e técnicas de vinificação.

Os romanos, por sua vez, aperfeiçoaram essas práticas, desenvolveram rotas comerciais e expandiram a cultura da videira por toda a Gália.
O vinho era um símbolo de civilização e um instrumento para “romanizar” as regiões conquistadas. Era consumido em tavernas e utilizado como moeda de troca, refletindo sua importância econômica e social.

O vinho, nas civilizações antigas, era muito mais do que uma simples bebida: ele incorporava valores culturais, religiosos e sociais, sendo também um marcador de status e um vetor de trocas comerciais.

Vinhos: alegria, convivialidade e confraternização

Hoje, para os franceses e muitos europeus, o vinho é sinônimo de alegria, convivialidade e confraternização.

Para aqueles que visitam a cidade de Paris e desejam explorar o universo deste item essencial da cultura francesa, mergulhando em um mundo onde olfato e paladar nos transportam muito além das diversas regiões do país, a adega Les Caves du Louvre é o lugar ideal para uma visita.

As adegas, outrora ligadas ao Palácio do Louvre, convidam os amantes da gastronomia francesa a descobrir o mundo do vinho por meio de uma visita aos seus 800 m², minuciosamente decorados para proporcionar aos visitantes conhecimento e experiências enológicas inovadoras

Paris para amantes de vinhos- Caves du Louvre- Sala texte olfato
Ateliê preparaçao de vinho Paris
Local de Ateliê de Criação de Vinhos

Em espaços acolhedores e informativos todos os aspectos relativos ao vinho, desde a cultura das uvas até à degustação da bebida são explorados: tipos de uvas, solos, tipos de toneis, clima, engarrafamento, regiões, o olfato… De maneira divertida o visitante aprende e descobre informações pertinentes e interessantes sobre os variados temas.

Paris para amantes de vinhos: descoberta e saborEs

As visitas podem ser feitas com áudio guia em português pela manhã terminando em encontro com o sommelier para a degustação de três vinhos excepcionais e um bate papo e ou ainda tendo a agradável presença do sommelier durante todo percurso dando explicações, servindo os mesmos 3 excelentes vinhos e respondendo perguntas em francês ou inglês pela tarde.

O visitante pode escolher entre dois tipos de degustações de três vinhos, denominadas Visita e Degustação de Vinhos Clássicos e Visita e Degustação de Vinhos Premium.

Irwin, o simpático sommelier que acompanhou minha visita as Caves do Louvre é enólogo, formado em Vinicultura e um amante incondicional de vinhos.

Adegas em Paris Les Caves du Lovre
Especialista realiza visita guiada pelas tardes

Além das visitas com áudio-guia e visitas guiadas, as adegas Les Caves du Louvre têm parceria com os melhores artesãos franceses, proporcionando não apenas degustações de vinhos excepcionais, mas também workshops sobre harmonização de queijos e vinhos, além da oportunidade de criar a sua própria versão da bebida de Baco.

Fica a dica para um passeio repleto de descoberta e sabor em Paris!

  • Endereço: 52 rue de l’arbre sec – 75001 Paris
  • Horários das visitas sob reserva, 7/7 dias, pelas manhãs com audio-guia e pela tarde visita acompanhada em inglês e francês.
  • Horários da loja: Das 14h às 19h, de segunda a sábado
  • Metrô: Linha 1: Parada Louvre Rivoli RER A & B: Parada Châtelet Les Halles

Conheça também o Museu do Vinho em Paris

Nota * Le Bon Vivant: Ser bem-humorado, alegre, que gosta e sabe aproveitar os prazeres que a vida lhe proporciona. Diz-se da pessoa que aproveita os prazeres da vida.

Fontes: Dicio, Les Caves do Louvre, https://www.vinibalades.com, http://www.cdi-garches.com/, https://fr.wikipedia.org/

O dia em que Leonardo da Vinci se revirou no túmulo

O mundo inteiro viu as imagens das duas ativistas que atiraram sopa na Monalisa.

Infelizmente, poucos ouviram ou compreenderam a mensagem que elas tentaram transmitir. A mídia destacou nas manchetes o ato em defesa da ecologia e relacionado à questão climática. O que, de fato foi, mas não apenas…

Segue a transcrição do texto recitado pelas mulheres após o lançamento da sopa no “rosto” da Monalisa:

“O que é importante? O que é mais importante? Arte ou direito à alimentação saudável e sustentável? Nosso sistema agrícola está doente. Os nossos agricultores estão morrendo no trabalho. Um em cada três franceses não faz todas as suas refeições todos os dias.”

Em seguida, foram detidas. De acordo com o Louvre, elas haviam escondido a sopa de abóbora em uma garrafa térmica de café.

Falou-se muito menos nas televisões francesas e redes sociais sobre os milhares de tratores que invadiram a cidade de Paris na mesma semana, levando ao ápice o movimento iniciado em 2023 por seus donos, agricultores desesperados diante dos desafios que enfrentam.

Encargos, impostos, más colheitas, sistema burocrático pesado e, sobretudo, concorrência de produtos ucranianos isentos de impostos e do Mercosul transgênicos e cheios de agrotóxicos ameaçam a autonomia alimentar de um país que já viu sua Indústria desaparecer e segue desenfreadamente em direção ao “american way of life (and production)”

Ou seja, o governo pressionou tanto os agricultores financeiramente que agora estão acuados entre o desesperado desejo de usarem agrotóxicos hoje proibidos na Europa ou perderem suas terras. Os mesmos agricultores que lutam há anos por uma produção e uma alimentação saudável já não sabem como sobreviverão diante do liberalismo econômico e o colonialismo químico que estão sofrendo.

Enquanto a militância e termos como colonialismo político e cultural caem em desuso, esses e outros tipos de colonialismo, tal como o colonialismo midiático, e agora o colonialismo químico seguem se alastrando e no caso deste último matando gente.

A luta dos agricultores franceses é tão importante para nossas vidas quanto foi a Revolução Francesa. Se esses agricultores franceses tivessem o merecido reconhecimento e ganhassem essa guerra, a qualidade de sua alimentação no Brasil teria uma grande chance de melhorar.

Leonardo da Vinci, humanista, artista multidisciplinar, pintor, arquiteto, grande amante de botânica, biologia e horticultura certamente não aprovaria o crime que está sendo feito pelas grandes empresas que barateiam seus alimentos usando agrotóxicos e transgênicos para produzi-los.

Assim, Leonardo da Vinci, conhecido apreciador de uma dieta à base de legumes e até mesmo de sopa e notório autodidata, deve ter se virado no túmulo, não porque o vidro que protege a Monalisa ficou sujo, mas porque as militantes parecem não ter conseguido passar seu recado.

Leonardo da Vinci, o inventor e humanista, também não deve ter gostado que apesar de tantas imagens veiculadas, nada tenha sido dito sobre a real problemática por trás dos dois fatos.

Estamos vivenciando a luta pela manutenção da comida saudável e de boa qualidade e pela autonomia alimentar de um território. Se os agricultores franceses perdem essa guerra, o mundo perde. Enquanto alguns fazem a coisa certa, temos sempre a esperança que o exemplo se alastre, mas se eles forem erradicados, o que resta para as gerações futuras?

Eu só fico imaginando Leonardo, com as mãos levantadas, tal o homem de Vitruvio, talvez em um gesto de desespero, pedindo que a elite e grandes empresas alimentícias deste mundo deixem os pequenos agricultores exercerem suas profissões adequadamente e que a população francesa e do mundo coma uma comida sem veneno.


Notas:

O novo e jovem primeiro ministro Gabriel Attal, fez um bonito discurso e promessas de subsídios e atos comerciais para valorizar a produção francesa, abrindo as portas para discussão com os principais sindicatos e liberando as ruas e estradas aos arredores de Paris dos tratores pelo momento.  Em regiões Isère et Boches du Rhône o movimento continua. Veja como se apresenta a situação nos dias 3 e 4 de fevereiro.

  • Reabertura da A10 em Île-de-France em Dourdan em ambos os sentidos
  • Reabertura da A10 entre Saintes e Granzay-Gript em ambos os sentidos
  • Reabertura da A71 entre Vierzon e Bourges em ambos os sentidos

Algumas manifestações ainda estão dificultando o trânsito, envolvendo o fechamento de estradas pelas autoridades municipais (lista fornecida pelo jornal Le Midi Libre que provavelmente mudará rapidamente):

  • Fechamento da A7: no sector de Viena em ambos os sentidos; entre Chanas e Bollène em direcção a Marselha, entre Avignon Nord e Chanas em direcção a Lyon
  • Fechamento da A9: entre Gallargues e Nîmes Est em ambos os sentidos entre Remoulins e o cruzamento A9/A7 em Orange, em direcção a Lyon
  • Fechamento da A10 entre Saint-Maixent e Poitiers em ambos os sentidos
  • Fechamento da A20 no sector de Montauban em ambos os sentidos
  • Fechamento da A54 entre Nîmes e Garons em ambos os sentidos

“Manifestações em certos trechos e cancelas de pedágio também estão dificultando o tráfego, e alguns acessos à rodovia podem ser modificados por medidas de gerenciamento de tráfego“, diz a Vinci Autoroutes. Nas zonas em causa, a rede secundária está particularmente saturada e o tráfego é difícil devido ao adiamento do tráfego. Por isso, recomenda-se estar bem informado antes de viajar.” fonte https://www.midilibre.fr/


Se você deseja permanecer em boa saúde, siga esta dieta: não coma sem sentir vontade e jante levemente; mastigue bem, e deixe o que você acolhe dentro de você ser bem cozido e simples. Quem toma remédio se machuca. Cuidado com a raiva e evite o ar pesado. Levante-se direito quando sair da mesa e não adormeça ao meio-dia. Seja sóbrio sobre o vinho, tome-o frequentemente em pequenas quantidades, mas não fora das refeições, nem com o estômago vazio; nem atrasar a ida aos banheiros. Se você se exercitar, mantenha-o moderado. Não se deite de bruços ou com a cabeça baixa e cubra bem à noite. Deite a cabeça e mantenha a mente em alegria. Fuja da luxúria e siga a dieta.   Leonardo da Vinci

Para saber mais sobre Leonardo e sua relaçao com a gastronomia :

Léonard et la cuisine, de la Toscane à la France Pascal Brioist

Outras referências: Agrotóxicos e colonialismo químico – Editora Elefante, Colonialismo químico: por que o | Podcast | Rádio Brasil de Fato

Tumultos na França

Tumultos na França: Então a França esteve em chamas e eu, neste meio tempo, resolvi falar sobre os ensaios para os Jogos Olímpicos.

Foi voluntária minha omissão. Fiz questão de não anunciar os atos de vandalismo que assolaram as periferias pois, apesar da gravidade e extensão dos fatos, felizmente, até o momento, não tive notícias de nenhum turista afetado pelas ocorrências. E esse é minha missão, meu trabalho cotidiano e que me sustenta.  Manter a segurança de compatriotas brasileiros em visita à França.

Não, não sou egoísta ou alienada. Porém, acredito que não haja nada a dizer sobre o sucedido.

Duas pessoas cometeram erros, levando a consequências fatais. Um drama, muita tristeza.  

Nenhum jovem tem direito a andar por ai sem carta de dirigir, infringindo a lei e colocando a vida alheia em risco. Nenhum policial tem direito de usar sua arma indevidamente.

Tumultos na França: politização de uma fatalidade

O resto é politização, quero dizer, uma recuperação política indecente de todas as partes para impor raciocínios e ações errôneas. A mídia ganha ouvintes e leitores… Uns dizem que o Estado tem culpa, outros clamam que em Roma, se você não agir como os Romanos…

Nem sempre existe uma verdade absoluta em questões socioeconômicas e culturais. Buscar um culpado ao drama NESTE MOMENTO é como querer saber quem veio primeiro: ovo ou a galinha.

Já sabemos que as desigualdades criam um mal-estar social latente. Os jovens filhos de imigrantes, confrontados a uma sociedade de consumo elitista selvagem, as redes sociais ostentatórias, as ambições frustradas pelo sistema de ensino, assim como a completa distorção do processo esforço e recompensa enlouqueceram e tentaram dar uma “lição” aos indiferentes. Paradoxal e infelizmente, reforçaram aos que os discriminam sua visão restrita e obtusa da situação. 

Quando na realidade, a meu ver, para os envolvidos a hora é de luto e reflexão. Para os demais, hora de respeitar.

A situação nas periferias está voltando ao normal. A briga vai continuar, mas agora o tumulto passou para o mundo virtual: vaquinha para ajudar a família do policial ( + ou – 1 milhão arrecadados até ontem) , vaquinha para a família do falecido adolescente ( + ou – 200 mil euros arrecadados até ontem) , hackers ameaçando juízes, twitters rolando soltos.

Os visitantes não estão em perigo, mas vale lembrar: como em todo lugar do mundo, se houver tumulto de um lado, vá para o outro. Aqui, se houver tumulto em direção aos Champs Elysées ( difícil de acontecer com 40 000 mil “defensores da ordem” nas ruas) o pior que pode acontecer ao passante é ter que desviar para a Torre Eiffel, o Louvre ou a área da Igreja Notre –Dame, por exemplo.