França: medidas sanitárias, escolas, vacinas.

Bem que eu hesitei em falar das novas medidas sanitárias aplicadas na semana passada pelo governo Macron, anunciadas pelo primeiro ministro Jean-Castex.  Afinal, o governo francês é reativo e muda as normas sanitárias à medida que a situação muda e, devido as novas variantes, a situação não para de mudar .

E agora? As novas medidas, são “novas novas medidas” ou somente uma repetição das medidas da semana passada?

  • Na realidade a medida de toque de recolher às 19 horas e demais regras aplicadas à 16 departamentos na semana passada  agora se extendem a todo território francês, assim como o fechamento dos comércios não essenciais.
  • Deslocamentos de mais de 10km de seu endereço fixo são proibidos, porém, serão tolerados durante o fim-de-semana de Páscoa, permitindo à aqueles que tem casas secundárias de se instalarem fora das cidades.
  • A proibição de reagrupamento acima de seis pessoas em via pública segue em vigor.
  • A novidade é o fechamento das escolas por um mês. Dos quais aproxidamente 2 semanas de aulas on-line e duas de férias escolares.

Todas as escolas da frança metropolitana – creches, escolas primárias, faculdades e escolas secundárias, fecharão na sexta-feira à noite, 2 de abril.

Escolas e a pressão sindical

Na próxima semana, de 6 a 9 de abril, “cursos para escolas, faculdades e ensino médio serão administrados on-line”, disse o presidente, exceto “para os filhos de médicos, enfermeiros e cuidadores e algumas outras profissões, bem como crianças com deficiência”. Entre 10 de abril a 26 de abril, todos os estudantes metropolitanos estarão de férias por duas semanas. Os alunos do ensino fundamental e infantil retornarão à escola em 26 de abril, enquanto os estudantes do ensino médio voltam às aulas on-line por uma semana adicional até dia 3 de maio.

Vale ressaltar que dentre os países da União Europeia, a França foi aquele que menos fechou suas escolas durante a pandemia. As classes foram mantidas desde o fim do primero confinamento no primeiro semestre de 2020, sem pausas, embora os grupos tenham sido divididos e a frequentação escolar intercalada nas escolas públicas em certos momentos. 

O medo de descolarização e marginalização e a observação do disfuncionamento do sistema on-line para estudantes da rede de ensino pública, além das baixas taxas de contaminação entre a faixa etária juvenil motivaram até então a manutenção das escolas abertas.

A educação não é negociável” declarou Emmanuel Macron em seu anúncio desta quarta-feira. Seria esse um recadinho para o sindicato dos professores?

De fato, a França se orgulha de jamais haver fechado suas escolas mesmo durante as duas guerras que vivenciou no século XX.


França 1a guerra mundial 1914 /1918

Revista Pedagógica 1915Agradeço ao meu eminente amigo, o senhor deputado Ferdinand Buisson, pela honra concedida ao oferecer-me a presidência desta brilhante reunião. Tenho o prazer de ser novamente o anfitrião desta nobre casa e seu presidente muito ativo e dedicado, meu honorável colega Sr. Dessoye. Vim prestar homenagem ao heroísmo demonstrado por nossos trinta mil professores mobilizados desde o início da guerra. Citações à ordem, promoções, condecorações, proezas de todos os tipos, lesões, mortes excepcionais: eles se cobriram de glória; coroaram seus ensinamentos com as mais altas das lições, o sacrifício de si mesmo para a Pátria e os Justos; eles adicionaram uma página imortal à história da Universidade da França. Nossas professoras competem com nossos professores em dedicação e coragem. Em todos os lugares elas distribuem suas forças, seus corações para os feridos, doentes, refugiados, crianças...

Vocês conquistaram uma grande vitória, senhores: a escola da República, submetida ao maior teste que uma instituição humana pode passar, ganhou nesta crise a admiração e o reconhecimento de todos os franceses.

Revista Pedagógica 1915_ Conferência da Liga dos Professores discurso do Deputado e membro da Academia Francesa Paul Deschanel

França 1939/45


Desta vez, a pressão do sindicato dos professores em prol da vacinação de seus membros, a pressão dos médicos, o temor das novas variantes e o fechamento contínuo de classes com jovens infectados foram considerados pelo governo razões plausíveis para a tomada de decisão.

Resta aos franceses o prazer de sair de casa e admirar a vizinhança. Com a tolerância anunciada para este fim de semana de Páscoa, as famílias mais abastadas preparam-se para deixar as cidades e os trens estão lotados.

 A liberdade de andar por aí.

Algumas pessoas se surpreenderam com a liberdade de locomoção e a falta de limite para o número de horas passadas ao ar livre e se perguntam as razões dessa medida.

Macron sabe que as notícias de países onde a vacinação está mais avançada chegam à cada dia. E se o povo estivesse fechado em suas casas a frustação seria crescente e sem limites. A saúde mental dos franceses é importante! E o ano que vêm, é ano de eleição.

A luz no fim do túnel.

Medidas sanitárias a parte, sabemos que a saída para toda essa situação está nas vacinas. Se você acha que no Brasil as coisas estão lentas com seus 17 milhões de pessoas vacinadas, saiba que aqui temos aproximadamente 8 milhões de pessoas vacinadas com a primeira dose e 3 milhões com as duas.

A França optou por comprar suas vacinas unicamente através das negociações feitas pela União Europeia, fato que nos deixou atrasados em relação à aqueles que decidiram “jogar a partida em solo”.

Além disso, ao contrário do Brasil, a França não dispoe de logística para vacinação em massa. Para vacinas obrigatórias, o médico receita, você compra na farmácia e volta ao médico para aplicação.

Assim, tudo está sendo criado do 0. Pontos de vacinação, distribuição, logística não aparecem do nada. Esperamos que quando as novas doses programadas para chegar em breve as discussões de quem as aplicarão já tenham cessado. Farmacêuticos, médicos em gabinetes, pontos de vacinas em estádios, tudo já foi cogitado.

Muitas dúvidas pairam no ar, a única certeza é que as vacinas resolverão o problema, e somente essa certeza já é uma excelente notícia, não é mesmo?!   

E como diz um famoso ditado francês: Tudo chega para quem sabe esperar. (“Tout vient a point à qui sait attendre”)

Esperemos…

Lojas fechadas em Paris

Novas medidas sanitárias: Tudo isso para isso?

Novas medidas sanitárias para parisienses e dezesseis departamentos franceses.

Desde os anúncios efetuados pelo primeiro-ministro Jean-Castex comecei a hesitar sobre escrever ou não sobre a questão. O Rodrigo, meu colega do Panrotas perguntou meu parecer sobre o assunto.

A notícia não é desprovida de interesse, estaria de todas as maneiras nos jornais. No entanto, vivendo aqui, eu soube imediatamente que o anunciado nos comunicados de imprensa se traduziria em distintas aplicações e sofreria reajustes.

Apesar do tom didático de primeiro-ministro francês em sua conferência de presse quinta-feira, 17 de março, muitas dúvidas pairavam no ar.

CONFINAMENTO OU NÃO?

Poucos dias antes do anúncio oficial do primeiro-ministro Jean-Castex, diante da insistente pressão dos médicos em prol de um confinamento restrito, o presidente Emmanuel Macron havia declarado desejar evitar a todo custo um novo confinamento, tanto no pequeno estado denomindo Île de France como nas demais localidades francesas.

Em Paris- Apartamentos pequenos pouco convidativos à reclusão

Afinal, apesar dos maus resultados em matéria de disponibilidade hospitalar e contaminações, a região de Île de France abriga Paris e é carro chefe da economia francesa.

De fato, os números permanecem altos em toda a França: 25.537 pacientes infectados com Covid-19 estão internados, dos quais 4.353 estão em reanimação.

Talvez por essa razão o primeiro-ministro adotou um tom grave e didático para explicar essa nova modalidade de confinamento, completamente híbrida e que pode parecer para muitos contraditória.

Na sexta-feira o próprio Ministro da Saúde, Olivier Veran declarou que se recusava a chamar as novas medidas de reconfinamento.

REAJUSTES NECESSÁRIOS

As restrições as quais um terço dos franceses foram submetidos desde sábado começaram sofrendo mudanças desde o primeiro dia de implementação, com a súbita remoção do Atestado Oficial de Deslocamento ou Attestation de Déplacement Dérogatoire. A nova versão do documento, atestando as razões para 3 horas de vida externa e o limite geográfico 10 km,  foi considerada demasiadamente complexa e burocrática, chegando até a contradizer algumas normas anunciadas por Jean-Castex.

Na prática, o Atestado de Deslocamento entre 06:00 e 19:00 nos 16 departamentos sujeitos a novas restrições foi finalmente substituído, em caso de verificação, por um documento simples e uma justificativa de residência, informou o governo no sábado.

Se um dia alguém tivesse me dito que eu deveria assinar para eu mesmo um papel que me autoriza a sair da minha casa!
Se um dia alguém tivesse me dito que eu deveria assinar para eu mesmo um papel que me autoriza a sair da minha casa!

O atestado oficial de deslocamento e a  justificativa de residência continuarão a ser necessárias para deslocamentos de mais de 10 quilômetros.

Quanto ao atestado exigido em toda a França para deslocamentos durante o toque de recolher (das 19:00 às 06:00), ele permanece em vigor.

110 000 portas fechadas

Os grandes shoppings já estavam fechados, mas agora, para grande desespero dos pequenos lojistas, os comércios não essenciais voltam a fechar. Segundo o jornal Le Parisien 110 000 portas se fecham em todo território afetado pelas medidas.

No entanto, desta vez foram classificados como essenciais:

• Floristas

• Cabeleireiros

• Escritórios de advocacia e notários

• Livrarias

Lojas de óculos e chocolateiros já abertos durante o confinamento anterior, seguem abertos durante esse reconfimamento. Assim como reparação de computadores e bens pessoais e domésticos e demais estabelecimentos autorizados pelo decreto anterior datado de outubro.

O toque de recolher passa das 18h para 19h com a chegada da primavera.

As  escolas permanecem abertas com classes divididas em 2 grupos e dias de aulas intercalados. As universidades seguem unicamente com aulas on-line.

Uma página oficial do governo francês explica em detalhes as medidas para cada região.

REAÇÕES

Membros da oposição se mostraram surpresos com a leveza das medidas anunciada aos ansiosos franceses e a repetiram em coro: “Tudo isso pra isso?”

“Tudo isso para isso”, lamentaram em uníssono o líder dos deputados do partido Les Républicains (LR), Damien Abad e o secretário nacional do PCF, Fabien Roussel. “Acho particularmente perigoso tocar na corda psicológica dos franceses, aumentando a ameaça de confinamento nos últimos dias e finalmente enviando um primeiro-ministro envergonhado para fazer pequenos anúncios”, tuitou o deputado Damien Abad .

Na capital, como sempre, muitos parisienses se dirigiram às suas casas secundárias em busca de maior liberdade e muitas vezes em direção à outras regiões onde os comércios se encontram abertos.

Pessoas deixam a cidade de Paris e a região de Île de France

BOA NOTÍCIA

Porém, o que com certeza alegrou a todos é que ao contrário dos dois primeiros confinamentos, agora, com o “desaparecimento” da Attestation de Déplacement Dérogatoire, você pode continuar a ficar fora o tempo que quiser dentro de um raio de 10 km de sua casa.  

No entanto, aglomerações seguem proibidas e os grupos sociais devem seguir restritos à 6 pessoas.

“Agora sabemos que nos contaminamos infinitamente menos quando caminhamos ao ar livre do que quando estamos agrupados sem máscara dentro de casa”, disse o primeiro-ministro ao justificar as decisões.

Polícia evacua beira do Rio Sena dia 7 de março.
Aglomerações seguem proibidas apesar da liberdade.

RESUMINDO

Enfim, com excessão do comércio não essencial que fecha,  a mudança da hora do toque de recolher , o limite de deslocamento de 10 km e o desaparecimento do atestado de deslocamento anunciado, nada muda em nosso quotidiano. Mesmo porque o atestado desaparecido durante a composição deste artigo acaba de reaparecer no site do governo, desta vez, sem limite de tempo.

Daí minha hesitação em escrever esse post sexta-feira passada.  Como explicar o quê, o porquê e como se o pouco a dizer não está claro?

Agora que você o leu pode também dizer: Tudo isso para isso?

De fato, a novidade é que o governo francês implementou assim medidas empíricas, certo, porém fundadas não somente nas necessidades de controle sanitário, mas também no desejo de manter uma economia parcialmente ativa e a saúde mental das pessoas minimamente preservada.

O Reino Unido desconfina

Abre, fecha, recolhe, confina por região,confina nos fins de semana… . O vai e vem não para. São tantas restrições e tentativas de controle ao vírus na França que eu até parei de contar e retranscrever para vocês. Mas finalmente uma boa notícia.  

No Reino Unido, a campanha de vacinação contra o Covid-19 está trazendo os primeiros resultados muito animadores

A campanha britânica de vacinas está começando a dar frutos. Na segunda-feira, 1 de março, a Public Health England (PHE, o Ministério da Saúde da Inglaterra) publicou uma avaliação preliminar que comprova a eficácia das duas vacinas que estão sendo implantadas no país (Pfizer-BioNTech e Oxford-AstraZeneca) para prevenir infecções por coronavírus na década de 70.

O estudo de “todos os adultos com mais de 70 anos (mais de 7,5 milhões de indivíduos), e aqueles testados entre 8 de dezembro, 2020 e 19 de fevereiro de 2021”, mostra que, quatro semanas após a injeção da primeira dose, a proteção contra a infecção sintomática do SARS-CoV-2 é de 57% a 61% para a vacina Pfizer e de 60% a 73% para a vacina Anglo-Sueca Oxford/AstraZeneca. Para a faixa etária mais frágil (acima de 80 anos), os dados sugerem que uma única dose da vacina Oxford-AstraZeneca ou Pfizer-BioNTech reduz as internações em mais de 80% (entre três e quatro semanas após a injeção).

20 milhões de britânicos vacinados

No país europeu mais afetado pela pandemia, até agora mais de 20 milhões de britânicos receberam pelo menos uma dose da vacina.

Graças aos resultados promissores da companha de vacinação, o primeiro-ministro Boris Johnson apresentou as fases sucessivas de um desconfinamento anunciado como “cauteloso” e “progressivo”.  

A transição de uma etapa para outra e as reaberturas associadas dependem de quatro fatores:

  • a continuação bem sucedida do programa de vacinação,
  • o fato de as vacinas reduzirem as internações e óbitos,
  • que as taxas de infecção não levem ao ressurgimento das internações
  • e que a “avaliação de risco não seja fundamentalmente alterada” pelo surgimento de novas variantes do vírus. 
Desconfinamento- Todos buscando a boa receita

5 semanas entre cada fase de desconfinamento

A primeira etapa começará em 8 de março com a reabertura das escolas. Essa reabertura será seguida por lojas, academias e prédios públicos não essenciais dia 12 de abril; exibições de filmes ao ar livre e drive-ins devem ser capazes de retomar nesta data. Restaurantes, bares, cinemas e outros teatros fazem parte da terceira etapa do plano e poderão reabrir ao público dia 17 de maio. Finalmente, a etapa final está prevista para 21 de junho, com o levantamento de todas as restrições

Falando aos deputados britânicos, Boris Johnson disse que “não havia um roteiro crível para um 0 positivo”.

“Não podemos continuar indefinidamente com restrições que afetam nossa economia, nosso bem-estar físico e mental e o futuro de nossas crianças”, disse ele. É por isso que é essencial que este roteiro seja prudente, mas também irreversível. É, acredito, o único caminho para a liberdade. E seu início é possível pela velocidade do programa de vacinação de nossos cidadãos.”

Enquanto a maioria da população começa a ver uma luz no fim do túnel, alguns setores particularmente afetados pela pandemia, como a indústria hoteleira e de restaurantes, terão  que esperar mais algumas semanas.

Fronterias seguem fechadas para certos países

Simultaneamente aos preparativos para o desconfineamento, o governo apertou os controles fronteiriços para evitar a importação de variantes. Desde a última segunda-feira, residentes britânicos e irlandeses que chegam à Inglaterra de 33 países classificados como em risco devem se submeter a dez dias de quarentena em um hotel, às suas próprias custas.

Uma lista denominada Red List indica os cidadãos de quais países ainda não podem entrar no território inglês.

  • Angola
  • Argentina
  • Bolivia
  • Botswana
  • Brazil
  • Burundi
  • Cape Verde
  • Chile
  • Colombia
  • Democratic Republic of the Congo
  • Ecuador
  • Eswatini
  • French Guiana
  • Guyana
  • Lesotho
  • Malawi
  • Mauritius
  • Mozambique
  • Namibia
  • Panama
  • Paraguay
  • Peru
  • Portugal (including Madeira and the Azores)
  • Rwanda
  • Seychelles
  • South Africa
  • Suriname
  • Tanzania
  • United Arab Emirates (UAE)
  • Uruguay
  • Venezuela
  • Zambia
  • Zimbabwe

Maiores detalhes no link à seguir : Coronavirus (COVID-19): requirements to provide public health information to passengers travelling to England – GOV.UK (www.gov.uk)

Os franceses não fazem parte da lista, porém aqui estamos proibidos de deixar o território francês sem razões primordiais. Ou seja, poderíamos entrar, mas não podemos sair…

A situação não parece estar prestes à ser resolvida, mas pelo momento, um  resquício de volta à normalidade no país mais atingido pelo Covid-19 do continente europeu já se traduz em grandes esperanças.

Vacinação – Uma luz no final do túnel