Por que Paris é a cidade das luzes?

Se hoje os edifícios de cidades como Nova York e Hong Kong ficam iluminados todo o tempo, enquanto Paris reage ao aquecimento climático e apaga as suas luzes a noite, a cidade já foi ( e continua sendo) referência mundial em matéria de iluminação.

Para entendermos o termo Paris, cidade luz e a sua origem talvez devêssemos voltar ao século XVII, durante o reinado de Louis XIV. Naquele momento o rei e seu ministro Jean-Baptiste Colbert tentavam por todos os meios cessar a criminalidade que atormentava a cidade. Graças à iniciativa do então tenente-general da polícia Gilbert Nicolas,  em 1667, decidiu-se iluminar a cidade e seus becos escuros com lanternas e tochas.

As primeiras lamparinas

Simultaneamente, os moradores foram incitados a iluminar suas janelas usando velas e lâmpadas de óleo. Uma mudança louvada em vários textos da época testemunhando que visitantes e parisienses se encantavam ao ver tal empreendimento. Alguns dizem que foi neste momento que Paris ganhou o apelido de City of Lights.

Já a partir de 1763 as ruas de Paris começaram a brilhar sob as lâmpadas a óleo, o que também foi uma grande inovação para o período. Em 1878, durante a exposição universal de Paris, vários lugares e avenidas foram equipados com velas “Yablochkoff”, um tipo de lâmpadas a base de arcos elétricos. Essas novidades eram de grande impacto quando, naquela época, Paris já rivalizava com Londres sua notoriedade e modernismo. Um ano depois Thomas Edison fundou a Edison Electric Light Company. Não demorou muito e a partir de 1880 em Paris as lamparinas a gás começaram a ser substituídas pelas luminárias elétricas.

Lamparinas de Yablochkov . Avenida da Opera
Luminária séculos XIX e século XX

PARIS: CIDADE DAS LUZES

As explicações que justificam o apelido “City of Lights” são hipóteses, eu, pessoalmente prefiro pensar que Paris é a cidade das luzes graças ao Iluminismo, a noção de igualdade entre os homens pregada por filósofos como Voltaire, Montesquieu, Rousseau, Molière.

No entanto,  tudo isso são detalhes sem importância para muitas pessoas que estão aqui neste momento e que partirão certos de que Paris é incontestavelmente a cidade das luzes, não foi sequer preciso saber por que motivo. Bastou curtir! Veja algumas imagens e receba com elas meus votos de muita luz, paz, saúde e prosperidade para seu 2018 meu querido leitor.*

*Na França os votos de feliz ano novo são feitos no decorrer de janeiro.

Qualidade de vida: a receita francesa

O verão acabou e com ele a polêmica sobre a « moda » litorânea francesa. Agora é chegada a hora das inúmeras manifestações sociais e greves. Já tivemos greve no Castelo de Versalhes, na Torre Eiffel, caminhoneiros bloquearam as saídas das petroquímicas, professores pararam, enfim todo mundo já parou para manifestar nestes dias.

Antes de falar das greves, voltemos uns instantes à polêmica questão do burquini. Não parece, mas ambos os fatos têm uma ligação.

Durante o verão algumas municipalidades, sob pressão de membros da comunidade, proibiram o uso do “burquini” a fim de preservar os dogmas republicanos em seu território. O apoio das populações locais não impediu que essas administrações e seus prefeitos fossem altamente criticados pela Esquerda, pelas organizações defensoras da liberdade, assim como da comunidade muçulmana e seus costumes.

Enquanto, em nome do politicamente correto, franceses queimam neurônios buscando soluções que contentarão gregos e troianos (como se isso fosse possível), ninguém ousa fazer a pergunta certa à comunidade certa. Portadores de véu, burca e defensores das mais severas normas religiosas, vocês estão prontos para aceitar francesas e alemãs fazendo TOP LESS?

Essa realidade de efervescência cultural e identitária me interpelou quanto a nós brasileiros. Somos suficientes observadores dos hábitos e abertos às culturas que visitamos quando estamos no exterior? Amamos o suficientemente a nossa própria cultura para desejar preservá-la quando estamos no Brasil? Preferimos nossos pratos tradicionais e nossa arquitetura ou edifícios com formato de caixotes retangulares servindo comida de má qualidade com nomes americanos tais como McDonald’s e Quick? Lutamos por nossa cultura? Lutamos por nossos direitos?

Supermercado retira substâncias controversas de seus produtos

A polêmica do “burquini” acabou este ano, mas os questionamentos ligados a mundialização estão somente começando. Destes questionamentos dependem nosso bem-estar futuro.

As manifestações sociais e greves estão acirradas, pois, as novas leis trabalhistas que Macron implantou saem exatamente da mesma cartilha que as leis trabalhistas do Temer. Além disso esse governo saiu cortando verba na área a cultura e saúde e dando espaço para a indústria farmacêutica e química. Setembro, mês do início do ano escolar, é historicamente o momento de manifestações sociais na França, mas medidas do Macron exacerbaram o espirito contestador francês e as manifestações continuam.

O que mais me fascina não são as notórias greves e manifestações sindicais, o interessante é que o quotidiano do francês é pontuado de polêmicas e (sobretudo) tomadas de ações em função de um posicionamento político. No bairro onde vivo em Paris, uma mobilização popular luta contra a instalação de um McDonald’s. O deputado europeu, antigo agricultor francês, José Bové luta há anos contra o monopólio das sementes transgênicas. Associações de celeiros “clandestinos” garantem a futura liberdade do agricultor e a existência de sementes livres de brevê. Pessoas manifestam contra o maltrato de animais. Até o grupo de voluntários, distribuidores de comida aos pedintes de rua, entrega comida “vegan” para defender suas ideais anticonsumo animal.  

Resposta a cortes do governo

Para resolver a crise político-econômica que assola e paralisa o mundo e as massas, temos que acordar para os problemas de maneira global, olhar mais longe que a ponta de nosso nariz ou do fundilho de nossos próprios bolsos e temos que agir. A meu ver, o Brasil tem que parar de se alienar com o vestibular ou a nudez artística e valorizar mais o ser humano e sua cultura. Fico impressionada com a quantidade de coisas que o brasileiro não sabe sobre o Brasil atual e o quanto aprecia o «fino”, o “estrangeiro”. Teriam os políticos roubado ou vendido também nossa cultura?

Temer e latifundiários vão mesmo vender o país para a Cargill? Quando questionado a respeito das consequências nocivas do plantio de soja transgênica para o pequeno agricultor brasileiro e quanto ao problema da invasão da floresta amazônica por latifundiários para aumentar as terras cultivo,  o PDG da Cargill disse que a culpa do desastre é do pequeno agricultor francês que se recusou a implantar as normas de plantio impostas pela Cargill, fazendo assim a empresa se voltar para o Brasil a fim de implantar ai seu polo mundial de produção de soja transgênica!? 

O que eu quero dizer é que as melhorias não virão de cima. Muito pelo contrário! As melhorias só virão graças à cada um de nós, indivíduos pensantes e sobretudo atuantes. Se você está desesperado e paralisado, com a impressão que não tem como realizar aquele velho sonho de mudar o mundo, não culpe somente os políticos e faça você mesmo alguma coisa para que o mundo melhore. Se você aspira a dita qualidade de vida do primeiro mundo, faça como as pessoas no “primeiro mundo”: saia às ruas para exigir seus direitos, milite, (e se é daqueles que não aguenta mais a política) faça reciclagem, voluntariado, informe-se, deseje e aja em prol do bem ao próximo, deseje e aja em prol do bem dos animais, compre conscienciosamente (acredite, a força do consumidor muda a qualidade da produção), polua o menos possível, consuma produtos e alimentos ecológicos.  Seja crítico, seja contestador, seja polêmico! Acredite, 200 milhões de cidadãos podem tudo e podem inclusive mudar o mundo.

Paris e a ressurreição de uma profissão

Uma das mais surpreendentes atrações de Paris é sua população. Elegante ou voluntariamente desajeitado, nostálgico de um tempo revolto ou insaciável futurista, socialista “bobô”, conservador “fachô”, ou centrista oportunista, seja ele quem for, o parisiense é sempre um personagem intrigante.

E em Paris, cada um destes personagens únicos catalisa esse conjunto fascinante de humanos, arquitetura e atividades continuamente efervescente e inusitado.

Para exemplificar minhas palavras pedi ao meu amigo Didier uma entrevista. Assim, pela mesma ocasião ele dedicaria o livro de sua autoria que comprei. Marius, como é chamado desde que abriu uma empresa do mesmo nome em 2015, sempre simpático, prontificou-se: assim que estivesse no bairro me avisaria para tomarmos um café.

E como não poderia deixar de ser, foi pela janela que vi Marius chegar, antes mesmo que o telefone tocasse para avisar o fato. Com seu taxi inglês transformado, Marius não passa despercebido. O amolador de facas e tesouras e seu “ateliê móvel” atraem os olhares de potenciais clientes, mas também de muitos curiosos locais e estrangeiros. 

Outrora errantes em carriolas de madeira, os afiadores de facas foram suplantados pela modernidade. Seus serviços passaram a ser oferecidos em supermercados, em sapateiros e até mesmo eletrodomésticos apareceram para cumprir a tarefa.

Porém Didier, quero dizer, Marius, graças à sua formação de cozinheiro,  sabe que os colegas da profissão não trocam suas facas com facilidade e não gostam de deixa-las sob a responsabilidade de  qualquer um. O profissional precisa de seu material funcional e disponível e não pode perder sequer um dia de trabalho sem ele. Então, em função deste parâmetro, com seu veículo e agenda em mãos Marius partiu ao encontro da nata da cozinha francesa e enquanto serpenteia as ruas da capital, Marius serve também o povo da cidade.  Segundo Marius, seus segredos para essa ressurreição bem sucedida são: um serviço de proximidade, a alta qualidade da prestação com a qual ganhou a confiança da clientela, preços fixos e pacotes mensais para os clientes regulares e flexibilidade para a clientela de passagem. Os cozinheiros  e a população ganham em tempo e qualidade, diz Marius.

E, sobretudo, segundo o entrevistado, Marius criou um conceito, repaginou a profissão com estilo “vintage”, dando uma “nova” imagem ao antigo ofício. A empresa tem um primeiro franqueado e vem crescendo. Marius, Le remouleur é  um exemplo para quem já não acredita na força do contato humano. O seu sucesso convida a reflexão, faz com que eu me questione: e se nossa profissão tivesse um problema de imagem?  

Se você duvida do sucesso da empreitada, assista aos vídeos de Marius em um encontro casual com o grande ator Gerard Depardieu e nas cozinhas do Primeiro Ministro Francês ( emissão de TV Echappées Belles, se tiver um tempinho as imagens de Paris valem a pena).

Enfim, voltando ao tema do blog: Paris! Graças a figuras como Marius, Paris mantêm seu charme inigualável e (quase) indescritível. Sempre imperdível!

 

Facebook Marius