“A Búzios do Nordeste”: o problema dos títulos comparativos e a criação de expectativa

Na Comunicação, é comum utilizarmos referências mais conhecidas para garantir que a mensagem será absorvida apropriadamente pelo público. Basta assistir a qualquer reportagem de telejornal, e com certeza você ouvirá comentários do tipo “o Oscar do Esporte”, “o Oscar da Televisão” ou “o Oscar da Música”, para se referir, respectivamente, ao Laureus, ao Emmy ou ao Grammy. Não é que os tais prêmios não tenham importância – é só um recurso para facilitar a compreensão do que está sendo dito.

O problema começa quando o mesmo estilo é utilizado no Turismo. Para a divulgação de um destino, profissionais lançam mão de todas as ferramentas possíveis para garantir a venda, e se esquecem de que todo processo comunicativo pressupõe um interlocutor com referenciais preexistentes – se você diz que uma determinada praia é o “Caribe Brasileiro”, por exemplo, pode causar tanto um resultado maravilhoso quanto péssimo, a depender da própria experiência do cliente em relação às praias caribenhas. No Turismo, ainda vale mais a máxima de “Tu és eternamente responsável pela venda que realizas” do que responsabilizar o cliente pela expectativa que ele cultiva.

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Um caso bem conhecido ocorre num certo vilarejo do Litoral Norte da Bahia. Outro dia um amigo carioca, morador de Salvador, mas com um currículo recheado de muitos verões baladeiros na Região dos Lagos, encasquetou que queria conhecer Praia do Forte porque estava com saudade de Búzios (e tinha ouvido falar que lá era “a Búzios do Nordeste”).

Na época, eu mesmo ainda não conhecia a Região dos Lagos, famoso destino turístico do Rio de Janeiro, e era um dos que reproduzia o epíteto quando falava da Praia do Forte. E o que aconteceu? Meu amigo adorou o lugar, mas voltou decepcionado porque não viu nada de Búzios por ali.

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[Foto: Projeto TAMAR]
Em outras ocasiões, a comparação funcionava perfeitamente – em geral, falava com pessoas que também nunca tinham estado em Búzios, então no máximo causava um impacto pela fama, e nada além disso. Mas bastou inserir nesse cenário uma pessoa com uma ligação mais forte com a cidade fluminense, e pronto: a comparação veio por água abaixo.

Por um lado, guardadas as devidas proporções, as duas até que se parecem em alguns aspectos, como a presença de lojas de grife, os restaurantes renomados, os preços das pousadas, as luxuosas casas de veraneio, a diversidade de vida marinha e os engarrafamentos quilométricos nos feriados. Fora isso, são destinos com propostas bem diferentes.

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Além disso, as comparações tendem a trazer uma carga de valoração que não é saudável para a consolidação do destino: no momento em que eu digo que a Praia do Forte é a “Búzios do Nordeste” e não que Búzios é a “Praia do Forte do Sudeste”, naturalmente pode se inferir um caráter de superioridade de uma em relação à outra. E a realidade é que a Praia do Forte, em si, já possui personalidade própria e pode ser vendida de forma autônoma, desde que se tenha o conhecimento adequado para a sua divulgação.

E o que você precisa saber sobre a Praia do Forte é:

1 – Não é uma cidade

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A praia faz parte do município de Mata de São João, cuja sede fica a 70Km de distância. A vila tem a melhor infraestrutura do Litoral Norte, com agências bancárias, supermercados e outras facilidades, mas – diferente de Búzios –, não é uma cidade.

2 – Não está localizada em Salvador

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Do Aeroporto de Salvador até a Praia do Forte, você precisa passar ainda pelas áreas dos municípios de Lauro de Freitas e Camaçari, na rodovia que segue para a divisa com o Estado de Sergipe. Dá para conhecer Salvador em um dia, por meio de um City Tour, mas não pense que vai conseguir sair à noite, jantar no Pelourinho, e voltar para a Praia do Forte como se fosse ali na esquina – são mais de 80Km.

3 – Não espere encontrar festas e baladas em qualquer época do ano

Praia do Forte - Happy Hour
[Foto: Turisforte]
Regra geral, a Praia do Forte é um destino bucólico, mais tranquilo, e ideal para casais e famílias. No quesito vida noturna, o clima dos restaurantes costuma ser de happy hour, com música ambiente ou no máximo um cantor de voz e violão (nada de boates ou música eletrônica). Já no Verão e em ocasiões especiais ao longo do ano, o lugar realmente recebe grandes shows – os chamados ensaios de Carnaval, com nomes famosos da Axé Music – e festivais de música.

4 – É um paraíso da vida marinha

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Quatro das cinco espécies de tartarugas marinha que ocorrem no Brasil podem ser encontradas na Praia do Forte. Não por acaso, o local foi escolhido em 1982 para abrigar um dos mais importantes Centros de Visitantes do Projeto TAMAR no Brasil, atendendo cerca de 600 mil pessoas por ano.

[Foto: Portomar]
[Foto: Portomar]
Para completar, de julho a outubro a região recebe ainda inúmeras visitantes ilustres – é a temporada das baleias jubarte, com disputadíssimos passeios de barco em alto mar para a observação desses animais. E se você viajar fora da época, dá ainda para aprender sobre o tema conhecendo o Instituto Baleia Jubarte, também localizado na Praia do Forte.

5 – Tem (bastante) História

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Os primeiros registros de colonizadores na região datam do Século XVI, quando o português Garcia d’Ávila recebeu do Governador-Geral um extenso conjunto de terras que ia do Rio Pojuca ao Rio Real. Ali mesmo, em 1624, foi construído a Casa da Torre (um castelo-fortaleza em estilo medieval que acabou dando nome à Praia “do Forte”). O local é aberto a visitação e atualmente é conhecido como Castelo Garcia d’Ávila.

6 – É ideal para passeios ecológicos e de aventura

Quadriciclo - Reserva Sapiranga
[Foto: Portomar]
Desde a idealização do projeto, quando as terras foram adquiridas pelo empresário Klaus Peters em 1972, a Praia do Forte foi concebida para ser um modelo de turismo sustentável na Bahia. A região tem uma ótima oferta de atividades de lazer, como passeios de quadriciclo, de lancha com banana boat e voo de parasail. Além disso, fica próxima à Reserva Ecológica da Sapiranga, uma área de 500 hectares de Mata Atlântica – com rios, tirolesas, caiaques e trilhas.

7 – A praia é uma delícia!

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Como já é de se esperar de uma praia situada na Bahia, a água é morna, a areia é fina e o cenário é emoldurado por um belíssimo coqueiral. Não existe um calçadão ao longo da orla – do ponto onde a vila começa, é preciso caminhar cerca de 600 metros até a praça da igrejinha, onde está o principal acesso à praia. Dali, a opção é caminhar pela areia na maré baixa (quando também se formam as famosas piscinas naturais, perfeitas para a prática de mergulho).

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Precisamos valorizar nossos destinos e lhes dar visibilidade. Num primeiro momento, uma comparação pode funcionar como boa estratégia de marketing, mas a sua reprodução excessiva pode facilmente cair no lugar-comum. Basta uma rápida pesquisa na internet, por exemplo, para identificar pelo menos mais três localidades apelidadas como a “Búzios do Nordeste”, e isso para não mencionar os inúmeros “Caribes” e “Suíças” brasileiras que ouvimos falar por aí – problema de criatividade, falta de conhecimento, ou um pouco de ambos?

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Uma venda não pode ser considerada bem sucedida se não for transparente com o cliente – que precisa saber exatamente o que está adquirindo. E para assegurar um atendimento com clareza e precisão, nada como um profissional eficiente e com as informações necessárias para garantir o entendimento correto do passageiro. Para tanto, nunca é demais se dedicar à leitura – seja de jornais, revistas, portais de notícias ou mesmo de blogueiros de viagem –, e estar sempre antenado às novidades e inovações do mercado.

Isso me lembra os Jogos Olímpicos de 2016, quando ficou célebre a resposta da ginasta Simone Biles, ao ser comparada a outros atletas já consagrados:

“Eu não sou a próxima Usain Bolt ou Michael Phelps. Eu sou a primeira Simone Biles”.

A Bahia não é, e não tem pretensão de ser, apenas uma versão de qualquer outro destino já consagrado.

A Bahia é a Bahia. E pronto.

Artesanato - Praia do Forte

 

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Iuri Barreto

Iuri Barreto é formado em Direito pela Universidade Federal da Bahia, colunista da rádio CBN Salvador e Assessor de Comunicação da Grou Turismo. É baiano de alma, nascimento e profissão, e também o autor do Guia do Soteropobretano, blog com mais de 100 mil seguidores nas redes sociais.

6 thoughts on ““A Búzios do Nordeste”: o problema dos títulos comparativos e a criação de expectativa

  1. Descrição exaustiva da região, boa. Muitos recursos linguísticos. Excelente textos. Para quem entende de textos elaborados por profissionais das Letras. Para o turista de a pé, pode ficar complicada a interpretação. Parabéns colega.

  2. Sou do Rio, moro em Búzios atualmente e curiosamente estive em Praia do Forte em 2010, 3 anos antes de conhecer Búzios.. Lembro que ficava incomodada ja que em todo atendimento, ao falar que eu era do Rio falavam “Aqui é igual Búzios, né?” e eu sequer sabia a resposta… Bem, hoje conheço muito bem Búzios e são lugares totamente diferentes! Lindos os dois, mas que realmente não cabe comparação. Concordo totalmente, cada destino é único e comparar só acaba cegando o turista para a identidade única do local visitado.

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