Expresso de Hogwarts na grande São Paulo

Santo André  tem vocação turística? Veja bem, não estou falando do vilarejo em Santa Cruz Cabrália, na Bahia, mas da cidade que faz parte do ABC paulista. Pare, reflita e pesquise antes de responder com um sonoro não.  Há sim, potencial turístico no município em que nasceu a CVC. No último 13 de maio, Paranapiacaba, distrito de Santo André, recebeu a 17ª edição da maior convenção de bruxas & magos da América Latina. Moradores da região pareciam estar em cenas de filme. Homens e mulheres – alguns vestidos com capas medievais, chapéus pontudos e roupas de época, praticantes de religiões neopagãs, ufólogos e demais místicos se encontraram para uma série de rituais, palestras, cursos e apresentações artísticas.

Os hotéis da região, assim como restaurantes e o comércio local adoraram.  Mas não é a primeira vez que o encontro acontece, embora por conta da pandemia, a cidade deixou de receber a convenção nos últimos 2 anos. Desde que a Associação Brasileira de Bruxaria elegeu uma casa histórica na região como sede, Paranapiacaba entrou na rota de magistas de todo o mundo.

Segundo o censo de 2010, 640 mil brasileiros disseram ser praticantes de “outras religiões” que não as tradicionais – católicos, protestantes, judeus, muçulmanos, espíritas kardecistas, umbandistas e candomblecistas. É claro que nem todos esses indivíduos são praticantes da wicca, religião que surgiu na década de 1950, tampouco fazem de outras tradições neopagãs. Mas o número de wiccanos, segundo alguns estudos acadêmicos não para de crescer.

Reportagem publicada no jornal O Globo, em 2020, aponta que o Brasil teria 300 mil bruxos, segundo a União Wicca do Brasil, dos quais 40 mil estariam no estado do Rio de Janeiro e 20 mil em São Paulo. Em sua maioria, millenials e geração Z. Tal informação se mostra coerente com uma matéria publicada há duas semanas na Folha de S.Paulo. O jornal aponta que o número de jovens entre 16 e 24 de outras religiões é maior que os de católicos e evangélicos nos dois estados.

A convenção em Paranapiacaba ganhou projeção midiática. A prefeitura de Santo André explicou seu apoio como ferramenta de uma estratégia de turismo segmentado.  Nesse sentido, reforço que turismo religioso se dá em várias frentes e tradições. Não apenas naquele voltado para cristãos. Praticantes da wicca, segundo pesquisas, têm alto poder aquisitivo, são early adopters de novas tecnologias, viajam em grupos para EUA e Inglaterra, além de fecharem pousadas no interior do pais e no litoral para prática de rituais.

No entanto, ainda há pouca profissionalização neste tipo de turismo, o que não deixa de indicar excelente potencial para pioneiros. Empreendedorismo não tem mágica. Sucesso vem da observação de oportunidades antes dos outros, estudos de mercado, planejamento e trabalho. Sorte é quando o espírito visionário identifica possibilidades, coragem e transpiração. Sem preconceito.

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Ricardo Hida

Mestrando em Ciência da Religião e pesquisador da PUC-SP em Turismo religioso, é escritor e professor. Graduado pela FAAP e pós-graduado pela Casper Líbero, trabalhou na Air France, Accor, Atout France e hoje dirige a Promonde, consultoria de marketing e comunicação. Está à frente também do Fórum de Turismo e espiritualidade. Foi em uma viagem de imprensa a Lourdes, na França, na época em que era diretor adjunto do escritório de Turismo francês no Brasil, que Ricardo Hida compreendeu a dimensão do Turismo religioso. Ao voltar para São Paulo, foi conhecer mais sobre esse universo que movimenta milhões de viajantes a cada ano em todo o mundo, há muitos séculos. Romarias, peregrinações, retiros. Não importa a tradição, o segmento não para de crescer.