O turismo religioso entra em 2026 em um momento particularmente estratégico para o mercado. Após alguns anos de forte retomada do turismo internacional, observa-se uma consolidação de segmentos especializados, e o turismo de fé desponta como um dos mais estáveis, resilientes e previsíveis em termos de demanda.
Mais do que um nicho, o turismo religioso tornou-se um eixo estruturante para muitos destinos, combinando fluxo constante, sem sazonalidade e um público que tem a fé como motor.
Um primeiro ponto a destacar é a diversificação do perfil do viajante religioso. Se antes predominava um público homogêneo, motivado quase exclusivamente pela devoção, hoje cresce um viajante híbrido, que combina fé, cultura, história, patrimônio e experiência, inclusive gastronômica. Peregrinações e eventos pontuais continuam centrais, mas passam a ser integrados a roteiros urbanos, gastronômicos, artísticos e de bem-estar. Em 2026, a tendência é de pacotes mais complexos, com maior tempo de permanência e maior gasto médio por passageiro.
Nesse contexto, destinos tradicionais seguem como pilares. Roma, Jerusalém, Santiago de Compostela, Fátima, Lourdes e Aparecida mantêm seu protagonismo, impulsionados por calendários litúrgicos previsíveis, jubileus, datas marianas e grandes eventos religiosos. O calendário católico de 2025–2026, por exemplo, com desdobramentos do Ano Santo, continuará impactando diretamente a demanda para a Itália, França, Espanha e Portugal.
Ao mesmo tempo, observa-se uma expansão de novos polos de turismo espiritual, inclusive relacionados a todo tipo de crença. Santuários regionais, rotas de peregrinação menos conhecidas, destinos ligados a espiritualidades orientais, tradições afro-brasileiras e experiências inter-religiosas ganham espaço em mercados maduros. Para operadores e DMCs, isso abre oportunidades de curadoria de produtos diferenciados, com forte valor agregado e menor competição direta.
Outro vetor central para 2026 é a profissionalização da cadeia. O viajante religioso tornou-se mais exigente em relação à hotelaria, ao transporte, à qualificação dos guias, à mediação cultural e ao conforto e, sobretudo, aos tabus, ritos e narrativas de suas crenças. É preciso conhecer a fundo uma religião para evitar gafes e aproveitar as mínimas oportunidades. A simples logística de deslocamento já não é suficiente. Espera-se interpretação histórica e religiosa rigorosa, sensibilidade inter-religiosa, gestão de grupos, domínio de idiomas e integração com a infraestrutura local.
Para hotéis e redes, o segmento representa uma oportunidade estratégica de ocupação em períodos de baixa temporada e de fidelização de grupos recorrentes. Em 2026, tende a crescer a busca por hotéis próximos a santuários, com facilidades para grupos, salas de apoio, alimentação adaptada e equipes treinadas para lidar com peregrinos e líderes religiosos. Lembrando o cuidado com A&B. Há grupos religiosos que possuem rigorosos preceitos.
A tecnologia também passa a desempenhar papel decisivo. Plataformas de gestão de grupos, aplicativos de peregrinação, conteúdos digitais de preparação espiritual e ferramentas de CRM específicas para turismo religioso começam a se consolidar. Para os profissionais do setor, investir em inteligência de dados e relacionamento contínuo com paróquias, dioceses, comunidades e organizadores de peregrinações será um diferencial competitivo.
Um ponto frequentemente subestimado, sobretudo pelos destinos, é o potencial econômico indireto do turismo religioso. Além da hotelaria e do transporte, ele impacta fortemente comércio local, artesanato, gastronomia, museus, editoras religiosas, produção cultural e economia criativa. Em 2026, espera-se que destinos trabalhem cada vez mais políticas públicas integradas para capturar esse valor de forma sustentável.
Merece destaque a dimensão simbólica do segmento. Em um mundo marcado por instabilidade política, crises identitárias e fadiga social, o turismo religioso responde a uma demanda profunda por sentido, pertencimento e reconexão. Para o mercado, isso significa que não se trata apenas de vender viagens, mas de operar experiências de significado.
Por fim, é preciso lembrar que no Brasil e no mundo, o número de pessoas sem religião não deixa de crescer. São os espiritualistas independentes, que navegam em diferentes sentidos. Muitos deles buscam momentos de silêncio, reconexão consigo e com a natureza. Nesse caso, o turismo espiritual não se vincula a uma região específica, tampouco a um período do ano. São viagens que aliam o bem estar a práticas de reflexão.
Para agentes, operadores, hoteleiros e gestores de destinos, 2026 se apresenta como um ano de consolidação e sofisticação do turismo religioso. Quem investir desde já em qualificação, curadoria, parcerias institucionais e produtos bem estruturados estará melhor posicionado para capturar um dos segmentos mais estáveis e promissores do turismo contemporâneo.