o turista religioso pode ser jovem e esportista também

Falsos deuses, mitos ou preconceitos?

Mitos são essenciais quando se fala de religião. Mas passam longe quando o assunto é decisão em negócios e estudos de mercado. Falar de turismo espiritual exige observação, pesquisas e muita reflexão.  Esqueça a imagem de freiras, padres e casais idosos em viagens de ônibus  visitando igrejas do interior para pagar promessas como retrato único deste segmento. Ele é múltiplo e complexo, como a fé dos brasileiros, mas, diga-se de passagem, altamente lucrativo.

Há que se entender primeiramente que turismo religioso pode se compor com outras modalidades, como gastronômico, cultural e até esportivo – de caminhadas, cavalgadas até escaladas. Não é uma atividade única, isolada. Eis o primeiro mito: tal modalidade assume ora a posição de protagonista, ora a posição de coadjuvante.

Quantos turistas, não religiosos, visitam catedrais góticas e igrejas barrocas na Europa, ou mesmo em Minas Gerais e Bahia? Quantos brasileiros na Ásia não foram conhecer templos budistas ou hindus mesmo nunca tendo ouvido falar de Krishna ou sutra? Sem deixar de mencionar as visitas a mesquitas no Oriente Médio, Norte da África e Espanha.

O advogado do diabo dirá: mas não houve motivação religiosa, apenas cultural. Mas ainda assim tais espaços não perderam seu status de local sagrado onde ritos acontecem. Nessas ocasiões o turismo religioso é chamado de coadjuvante mesmo movimentando, de forma significativa, a economia local. No entanto, que mais nos interessa, é quando a religião assume o protagonismo em uma viagem.  E nesse sentido, é preciso quebrar um segundo mito: tais viagens nem sempre são feitas por fiéis praticantes.

O crescimento dos “sem religião”

Muitos fundamentalistas religiosos não gostam de mencionar, mas na Europa, na América do Norte e mesmo no Brasil, pesquisas indicam que percentualmente, o número de pessoas “sem religião” é o que mais cresce. Ainda que movimentos pentecostais e neopentecostais ocupem mídias e mesmo posições importantes políticas, o crescimento não tem sido tão vigoroso como foi nos anos 90 e início dos anos 2000. Já aqueles que não se identificam com uma fé específica não para de crescer. É o que chamamos de novo movimento de secularização. 

Lembro: não estamos falando de crescimento absoluto, mas aumento relativo, percentual. E pessoas que se dizem “sem religião” não são necessariamente ateístas. Essa última categoria também está presente nesta segmentação mas não é a mais importante.

Pessoas sem religião podem ser aquelas que, em um movimento influenciado por aquele da Nova Era criam suas práticas religiosas de forma muito pessoal, não assumindo rótulos e compromissos com uma tradição específica. É a tal da espiritualidade independente.

São indivíduos que nasceram em um lar católico ou protestante, por exemplo, mas tomam passe no centro espírita vez ou outra, estudam Cabala, praticam Yoga, usam branco no réveillon porque traz boas energias. Podem ser os que não dispensam um tarô, como curiosidade -claro, ou ainda que correm para um terreiro quando a coisa aperta.

Há também os que buscam o self, o tal autoconhecimento. E para isso procuram rituais xamânicos, peregrinações a Santiago de Compostela ou meditação na Ásia.  Para eles, a viagem espiritual é a tal da experiência transformadora sem passar por nenhum processo de iniciação. Não querem ter vínculos religiosos. Querem apenas uma vivência transcendental. Desconectada da rotina. Usam expressões como “recarregar baterias”, “silêncio interior”, pagando caro por tal jornada e assim, destruindo o terceiro mito: a de que turismo religioso tem ticket médio baixo.

Turismo de experiência: muito além do vinho

Há um equívoco ao se associar o turismo de experiência apenas com enogastronomia ou esportes. Ou ainda crer que grupos religiosos são católicos para Roma ou evangélicos para Israel. A maioria desses turistas hoje deseja um processo de desintoxicação emocional, física e mental .

É claro que trabalhar com tal mercado exige conhecimento. Não dá para uma pousada no interior de São Paulo, como ouvi recentemente, receber certos grupos de yoga e servir presunto no café da manhã e carne no jantar. Quando eu era gerente de marketing na marca Sofitel criei amenities para muçulmanos, bússolas nos quartos, tapete individual para orações e o Alcorão no lugar da Bíblia.  Fidelizamos muitos clientes corporativos. Mas não é disso que estamos falando: clientes fiéis?

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Ricardo Hida

Mestrando em Ciência da Religião e pesquisador da PUC-SP em Turismo religioso, é escritor e professor. Graduado pela FAAP e pós-graduado pela Casper Líbero, trabalhou na Air France, Accor, Atout France e hoje dirige a Promonde, consultoria de marketing e comunicação. Está à frente também do Fórum de Turismo e espiritualidade. Foi em uma viagem de imprensa a Lourdes, na França, na época em que era diretor adjunto do escritório de Turismo francês no Brasil, que Ricardo Hida compreendeu a dimensão do Turismo religioso. Ao voltar para São Paulo, foi conhecer mais sobre esse universo que movimenta milhões de viajantes a cada ano em todo o mundo, há muitos séculos. Romarias, peregrinações, retiros. Não importa a tradição, o segmento não para de crescer.