NET-LAG

Este ano, para cada membro de minha família, as férias não se tratavam de um luxo, mas uma necessidade. (Imagino que este seja o caso de muitos leitores).

Nossas razões: política de arrocho, austeridade fiscal, lentidão para obtenção de créditos na área de transportes, novas leis, novas regras, novas multas, novas taxas, novos impostos, novas tecnologias, novos canais de distribuição, uff!

No âmbito familiar, aquela chatice típica de relação pais e filhos adolescentes: “-Sai da frente desta tela menino”; “-Larga esse telefone!”; “-Não fica sozinho ou até tarde na rua que é perigoso!”…

Precisávamos sair da cidade, mesmo sendo “A cidade”.  

Eu, pessoalmente, precisava não somente de férias, mas também a presença do sol e calor. Há quatro anos passando o verão europeu em destinos frios, seja no norte de Europa ou no inverno sul-americano, eu precisava mesmo de vitamina D, ver um céu azul e uma paisagem banhada de luz, sentir água salgada na pele!

Casa de ferreiro, espeto de pau ou Organização Last Minut ( em inglês fica mais chique, parecemos menos desorganizados)

No entanto, apesar da necessidade de recompor-nos, imperativos profissionais e pessoais nos impediram de fazer quaisquer reservas até dia 6 de agosto. Somente após termos resolvido as questões mais importantes, conseguimos enfim nos liberar e decidimos partir.

Mas eis que a agência de viagens Promovacances, a qual recorremos habitualmente, não tinha nada a oferecer que correspondesse ao nosso “pobre” orçamento.

Nas últimas semanas de férias na Europa as poucas disponibilidades da agência apresentavam preços exorbitantes.

E assim, o stress resultado dos esforços anuais se tornou o stress de organizar uma viagem de última hora on-line. 

Agente de viagens home-made e o Net-Lag

É sabido que podemos reservar vôos, hotéis, transporte terrestre, vôos de balão e todo tipo de atividades on-line.  Muito se fala da ascensão da compra on-line. Porém, pouco se fala do stress que essa opção pode causar.

Jean-Pierre, meu marido, começou então o exercício de agente de viagens “home-made” frente ao computador.                                                             

Ele sabia que eu reclamaria se na chegada de setembro eu tivesse sido privada de verão. Então ele já começou as buscas estressado com esse critério, me satisfazer! Sobretudo porque ele detesta praia e calor. Além disso, ele sabe que as praias do Mediterrâneo e Adriático recebem anualmente 220 milhões de turistas, muitos dos quais no verão. E outra coisa que JP detesta é multidões.

No entanto, o stress da compra on-line não se resume somente as diferenças de gostos e opções entre um casal sem agente de viagens para auxiliar na questão.

Errar na organização das férias pode ter consequências desastrosas!

E quando você faz uma reserva sem auxilio de um profissional você sabe que está correndo maior risco de ter uma surpresa, você tem essa consciência. Você pesquisa muito, você lê e pede opiniões de conhecidos. E foi isso que Jean-Pierre fez em cada minuto vago a partir do dia 6 de agosto. 

Sem saber que antes mesmo do Jet-Lag, a busca de uma viagem on-line pode causar no “cliente surfista” o efeito “Net-Lag”: a fadiga causada pela busca frenética na internet de sua próxima viagem.

Pois é! Em uma pesquisa realizada pelo instituto inglês OnePoll junto à 7800 millennials (nascidos entre 1980 e 2000) do mundo inteiro, mais de um quarto dos jovens viajantes declararam a organização de uma viagem em linha como uma das maiores fontes de stress de suas (curtas) vidas.

Enfim, para nós, começava um longo percurso através dos mais diferentes sites de viagens na busca da viagem ideal. E a descoberta: a declaração do Millennials parece brincadeira de jovem inexperiente, mas não é! O Net-Lag existe.

Não pense que é fácil brincar de agente de viagens, você precisa estar preparado. Veja algumas etapas importantes, fastidiosas e estressantes indispensáveis para realização desse exercício:

Clicando, pesquisando, evitando trapaças em sete etapas.

Para “surfar”, comprar on-line e obter bons resultados você precisa:

  • 1 Escolher o dia e a hora.

Quem diz on-line, fala lei da oferta e da demanda em tempo real. Quanto mais gente buscando, mais altas são as tarifas! Os preços de um aéreo podem variar em 65% dependendo do horário da busca ! Aparentemente, fins de semana são os piores dias e buscas noturnas ( entre 2 e 5h da manhã) são as mais frutíferas.  

  • 2 Desconfiar dos comparadores de preços

Embora muito práticos, apresentam o risco de serem eles mesmos uma agência de venda on-line e te reenviarem para o parceiro comercial com o qual dispõe de melhor acordo.

  • 3 Brincar de Verdadeiro ou Falso

Após vários cliques, descobrir que aquele preço super atrativo do topo da lista mal inclui seu acento no avião ou ainda trata-se de um pacote com um vôo de várias escalas e um total de 25 horas entre Paris-Barcelona.

  • 4 Verdadeiro ou falso (de novo?)

Esse site é mesmo de uma agência? O descritivo dessa atividade é realmente claro? Por que atividades similares têm preços tão diferentes em canais diferentes?

  • 5 Despistar o IP Tracking

Quanto mais você visita um site de viagens e se mostra interessado, mais você corre o risco de ver os preços subirem a cada visita. “Thanks IP Tracking”.

Será que me lembrei de suprimir o histórico de navegação ou navegar em modo privado? “Ah tá!!’ 

Será que o Qwant despista? Cadê o Qwant?

  • 6 Evitar o Top Ten

Com o abandono dos destinos Africanos e do Oriente Médio pelos franceses, a corrida pelas melhores vagas no Mediterrâneo e na península Ibérica ficou acirrada. Grécia, Croácia, Riviera Francesa, Costa Amalfitana, Costa del Sol, Algarve… Lindos e lotados, super lotados.

  • 7 Procurando Alojamentos e Apartamentos

Buscar pelo mesmo imóvel em vários suportes on-line para ter certeza que ele realmente existe. Em caso hotel, pagar com antecedência para assegurar a reserva, em caso de apartamento particular priorizar pagamento diretamente no local para evitar perda do dinheiro em caso de anúncio falso. 

O problema é que geralmente a oferta é tão vasta e alguns sites têm informações tão incompletas que não é evidente fazer uma escolha 100% confiante.

No vacancy

O nível de stress na casa subiu após havermos constatado a falta de disponibilidade em todos os hotéis e pacotes consultados, de todos os destinos possivelmente cogitados, ou seja, a França e Espanha, Grécia, Croácia.

Nos meados do dia 8 eu comecei também a fazer buscas em minhas horas vagas, incluindo horas que deveria estar dormindo.

O Net-Lag continuou se acentuando quando vimos a notícia: “Clientes da Booking.com pagam mais de 6000 euros por um terreno baldio anunciado como uma mansão podendo acolher dez pessoas na Croácia”.

Após 4 dias buscando em hotéis e pacotes sem sucesso, “de saco cheio” em analisar vôos, preços e ofertas esdrúxulas, passamos para o plano B: aluguel de uma casa/alojamento na França.

Partiu França! Férias no país número 1 do turismo mundial

Booking.com, Homeholiday, Airbnb, PAP, Abritel, Le Boin Coin, Le Camping.fr, Locationvacances.net…Além dos mais conhecidos, consultamos durante dias uma série de sites de alugueis que nem sabíamos da existência, tentando assim alugar em qualquer lugar agradável na França.

Detalhe: os calendários destes sites nem sempre estão em dia.

Assim após cada busca do local, busca de informações gerais sobre o destino, solicitação de reserva, recebemos respostas negativas atrás de respostas negativas. E a cada pedido acreditávamos ter encontrado algo. E a cada recusa era uma decepção. Já havia desistido da praia, já havia baixado meus critérios há um tempão e nada!

Após vários dias e longas horas de busca, dia 11 de agosto, as 21h50, Jean-Pierre, cansado de surfar diante de anúncios, encontrou uma casinha na floresta, há 5 minutos em bicicleta da praia, num camping 5 estrelas. Recentemente reformada, com 2 quartos, Wi-Fi e 3 bicicletas à disposição a morada nos pareceu mais que perfeita.  Sem hesitar Jean-Pierre solicitou a disponibilidade.

Alguns sites podem tomar 24 horas para confirmar sua reserva. Mas eis que 15 minutos depois tivemos a confirmação da dita reserva, pagamos e sentimos um grande alívio. “Waw”, mal dava para acreditar!

-Às 22h15min eu chamei: – Querido, vem jantar, disse eu aborrecida pela espera que já ocorria quotidianamente, porém feliz com a solução encontrada.

Espera aí, vou só jogar o endereço no Google Maps para me certificar da localização! Respondeu o homem da casa, orgulhoso em mostrar o resultado da longa busca. Mas de repente ele explode, gritando enquanto caminha pela casa com passos pesados e gesticulando muito, braços pelos ares:

-Putain de merde! Fait chier! Quelle connerie ! Et maintenant ??? Qu’est-ce que j’ai fais? Est-ce qu’on peut se faire rembourser?

(Puta merda ! Que cagada ! Que idiotice! E agora? Que foi que eu fiz? Será que seremos reembolsados?)

E eu lá, com a mesa posta, perplexa, sem entender nada e me perguntado: O que teria ele descoberto? Que história é essa de reembolso?  

Pois é, brincar de agente de viagens não é tão fácil como parece. Uma última linha do anúncio com importantes informações sobre o local havia sido negligenciada.

E lá vamos nós para mais uma rodada, agora lendo as condições de venda aceitas com um clique, aquelas mesmas as quais nunca ninguém lê...

Não perca o próximo post se quiser saber onde passamos finalmente nossas férias na França.

Published by

Silvia Helena

Após breves passagens pela Faculdade Metodista de São Bernardo e Belas Artes de São Paulo, aos 18 anos fui estudar no Canadá, onde vivi durante 23 anos. Lá me formei em História da Arte pela Universidade de Montréal, estudei turismo no Collège Lasalle de Montréal e no Institut de Tourisme et Hôtellerie du Québec. Comecei minha carreira na área trabalhando em Cuba. Durante os anos vividos no Canadá, entre outras coisas, fui guia de circuitos pela costa leste e abri minha primeira agência de receptivo para brasileiros. Há dez anos um vento forte bateu nas velas da minha vida me conduzindo até França. Atualmente escrevo de Paris, onde vivo e trabalho dirigindo a empresa de receptivo, a Holatour.

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