A Hotelaria de luxo e a sustentabilidade possível

Não é de hoje que o turista se preocupa com a sustentabilidade de suas viagens. Do rastro de carbono dos voos aos canudos de nossas bebidas, cada vez mais nos engajamos em fazer nossas viagens mundo afora o mais eco-friendly possíveis. No mercado de luxo, este tem sido um tópico ainda mais pulsante, e há ainda mais tempo – tanto que diversas propriedades perceberam, felizmente, que conjugar o máximo de conforto e a excelência em serviços com sustentabilidade é um casamento pra lá de possível. Tão certeiro, aliás, que diversos hotéis já estão nascendo voltados para essa filosofia.

É o caso, por exemplo, do novíssimo Kudadoo Maldives Private Island by Hurawalhi , um refúgio exclusivo em uma ilha privada das Maldivas com apenas 15 acomodações em sistema overwater bungalow. Ali, tudo está incluído, do fine dining aos tratamentos de spa.  Parte essencial do luxuoso resort desde seu primeiro projeto, 300kv de painéis solares estão incorporados aos telhados, garantindo autosuficiência energérica à ilha – tornando-o o primeiro resort de luxo totalmente sustentável no arquipélago.  Além disso, somente plantas e árvores nativas foram culivadas no local, estrategicamente plantadas para prevenir erosão. O consumo de plástico é reduzido, há programa de reciclagem de alimentos e estufas produzindo localmente itens frescos para os hóspedes.

O Kudadoo Maldives Private Island by Hurawalhi, nas Maldivas. Foto: Diego de Pol (Divulgação).
O Kudadoo Maldives Private Island by Hurawalhi, nas Maldivas. Foto: Diego de Pol (Divulgação).

O adorável Borgo San Pietro , na Toscana, era terra abandonada e foi totalmente re-cultivado pelos donos, que plantaram ali milhares de árvores, certificando suas terras como “organic farmlands” e garantindo produtos fresquíssimos ao seu restaurante estrelado no Michelin.  Também criaram uma linha de cosméticos naturais usando o máximo de sua própria produção agrícola – com direito a laboratório de pesquisa e produção in loco, sem desperdício de nada.

Mas alguns hotéis vão seguramente mais longe, com os safari camps da Great Plains Conservation . A rede de acampamentos de safári estrategicamente distribuídos por 3 países africanos (falo mais deles aqui) , fundada pelo casal Beverly e Derek Joubert, já nasceu de fato sustentável. Seu irretocável Zarafa Camp, no norte da Botsuana, foi o primeiro camp/lodge de safári 100% auto-suficiente energeticamente do país.

Extremo conforto sem abrir mão da sustentabilidade e conservação no Duba Plains da Great Plains Conservation. Foto: Mari Campos
Extremo conforto sem abrir mão da sustentabilidade e conservação no Duba Plains da Great Plains Conservation. Foto: Mari Campos

Mais que isso, a Great Plains desenvolveu todo seu business plan (são oito camps diferentes hoje, incluindo um novinho em folha, o Mpala Jena, inaugurado em dezembro passado no Zimbábue) apostando em um turismo totalmente sustentável (sensível, com baixo volume e baixo impacto), capaz de reverter seus proventos em conservação e apoio às comunidades locais (todo o lucro dos camps é inteiramente reinvestido nos mesmos e nos projetos sócio-ambientais que o casal apoia, dos Rhinos Without Borders ao Lamps for Learning Conservation Camp for Kids).  

Com todas as tendas e áreas comuns construídas com madeiras e lonas recicladas, seus camps unem o máximo do conforto (camas enormes, lençóis de muitos fios, banheiras soak in, gastronomia com selo Relais&Chateaux e outras amenidades de luxo, sobretudo nos absolutamente irrepreensíveis Duba Plains e Zarafa Camp) com o máximo de interação possível com o meio ambiente, incluindo atividades de safári que vão muito além dos game drives tradicionais (como em barcos, canoas, walking safaris etc). Hoje os camps são energeticamente suficientes através de energia solar, reaproveitam alimentos, reciclam lixo etc.

Luxo máximo em sistema tudo incluído no The Brando, um dos hotéis mais sustentáveis do mundo. Foto: Mari Campos
Luxo máximo em sistema tudo incluído no The Brando, um dos hotéis mais sustentáveis do mundo. Foto: Mari Campos

Mas é difícil bater, neste quesito, o resort The Brando , na Polinésia Francesa, considerado um dos mais luxuosos e também um dos mais sustentáveis hotéis do planeta. E também já nasceu 100% sustentável. Para começar, desenvolveu o SWAC (Sea Water Air Conditioning), uma tecnologia de ponta que retira água do mar do fundo do oceano para resfriar o sistema de ar condicionado, de maneira auto-suficiente e em sistema de looping, “devolvendo” a água ao oceano ao final do processo – técnica que já começa a ser pesquisada e implantada por outros hotéis (como o Intercontinental Resort Bora Bora & Thalasso Spa, também no Tahiti; falo mais sobre esses hotéis aqui).

Enquanto isso, estima-se que hotéis da Polinésia Francesa em geral gastem cerca de 60% de seu consumo total apenas em ar condicionado.  O SWAC sozinho é capaz de reduzir em 90% o consumo desse tipo de energia, reduzindo signficantemente os custos da hotelaria enquanto contribui para salvar o planeta – uma solução relativamente simples para ilhas desabitadas (como o atol de Tetiaroa, onde está localizado o The Brando), que são rodeadas de água mas geralmente dependentes do continente para energia. 

O SWAC do The Brando é tão revolucionário que começa a ser implementado também em outros hotéis, como o Intercontinental Resort Bora Bora & Thalasso Spa. Foto: Mari Campos
O SWAC do The Brando é tão revolucionário que começa a ser implementado também em outros hotéis, como o Intercontinental Resort Bora Bora & Thalasso Spa. Foto: Mari Campos

Além disso, o The Brando possui também dois tipos de painéis solares espalhados por toda a propriedade, num total de mais de 3700 deles, que provêem, sozinhos, mais de 60% da energia total necessária para manter um resort de luxo funcionando – sem racionamentos ou restrições para o lado do hóspede.  Até o final desse ano, devem ser auto-suficientes para 75% de sua necessidade energética, dia e noite. Têm também sistema de “food digester” para transformar resíduos alimentícios em composto em 24h, vidros são prensados e entregues a uma companhia polinésia que o reutiliza em construção, latas são vendidas a uma companhia que as transforma em material alumínio básico, óleo de cozinha é redistribuídos a duas companhias que o transforma em combustível biológico, armazenam e reutilizam água das chuvas e mais uma série de medidas inteligentes.

Os hóspedes, é claro, são convidados a separar o lixo inclusive dentro de suas vilas – mas tudo de maneira natural, sem interferir de modo nenhum no conforto deles durante a estadia (o hotel é internacionalmente premiado por seu irrepreensível sistema de hospedagem tudo incluído).  E eles ainda se beneficiam dos produtos fresquíssimos produzidos ali mesmo (de tomates a berinjelas), transformados em pratos de alta gastronomia, e dos mais de 200kg de mel produzidos mensalmente nos apiários espalhados pelo atol. 

É preciso investir alto, é claro. Mas os retornos vêm altos também, seja na redução de custos, na economia de recursos do planeta e, obviamente, nos laços estreitados com os hóspedes – que, sim, estão cada vez mais atentos a tudo. 

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Novo Palladio MGallery Buenos Aires

Depois de períodos consecutivos de queda no número de visitantes brasileiros, Buenos Aires deve entrar de novo no nosso radar, inclusive para escapadas de final de semana de viajantes do eixo sul-sudeste. O câmbio está novamente favorável para nós (com um real comprando entre 9 e 10 pesos e preços mais uma vez bastante tentadores principalmente para comer e beber bem) e a cidade está mais bonita, limpa e agradável que nos últimos dois anos. E felizmente a boa onda está vindo também com novos hotéis abrindo suas portas por lá. 

Acabo de passar alguns dias em Buenos Aires a convite do Destino Argentina para testar uma das mais esperadas novidades da hotelaria na capital porteña: seu primeiro hotel da bandeira MGallery by Sofitel, da Accor, o Palladio Hotel Buenos Aires MGallery by Sofitel.   

Foto: Mari Campos

Novinho em folha (o hotel ainda está operando em sistema soft opening apenas para convidados, mas já aceita reservas para estadias a partir da segunda quinzena deste mês), fica no centro, já quase Recoleta, com direito a metrô ao lado.  

O design contemporâneo já chama a atenção de cara no lobby, com a própria recepção integrada ao bar do hotel, e o restaurante Negresco Bistrô (que não testamos, mas deve servir pratos da cozinha mediterrânea) logo ao lado. Para o lazer, spa, fitness center e uma gostosa piscina climatizada ao ar livre, exclusiva para hóspedes. 

Foto: Mari Campos

Como toda propriedade que leva o selo MGallery, o Palladio já chega cheio de história. Seu nome é uma homenagem ao arquiteto italiano Andrea Palladio, um dos grandes mestres para os arquitetos europeus que deixaram sua marca em diversos edifícios porteños do século XVIII. O hotel ocupa o local da antiga casa onde nasceu Rodríguez Peña, que serviu de sede de reuniões que culminaram na Revolução de Maio. Um século depois, o imóvel deu lugar a uma residência ao estilo hôtel particulier francês, e a boisserie de carvalho que revestia as paredes dos salões principais da residência foi conservada com maestria pelo hotel. 

No total, são 113 quartos, todos muito espaçosos e com muita luz natural, wifi de excelente qualidade e Nespresso cortesia. Tomadas, adaptadores e entradas USB em abundância, inclusive ao lado da cama – uma necessidade da vida contemporânea que infelizmente ainda não é regra nem para novos hotéis. Os banheiros também são enormes, com muito mármore e banheira e chuveiro separados. Destaque para o fato de que 3 das 4 categorias têm enormes balcões privativos com interessantíssimos jogos de espelhos externos. O hotel conta ainda com uma “suíte presidencial” em estilo loft, com decoração bastante contemporânea e 89 metros quadrados de área. 

Foto: Mari Campos

Fiquei hospedada em uma “suíte deluxe”, a terceira categoria do hotel, com 57 metros quadrados muitíssimo bem distribuídos entre banheiro, quarto, living e um balcão enorme, com vista desobstruída para a Plaza Rodriguez Peña/Jardin de los Maestros, com o belíssimo Palacio Pizzurno do Ministério de Educação logo em frente. 

O café da manhã em sistema buffet também é completíssimo, bastante variado e com ótimos pratos quentes feitos na hora e horário bastante amplo (e com certa flexibilidade para quem parte muito cedo). Mas o destaque ficou mesmo por conta do serviço atencioso e prestativo, dos doormen ao staff do café da manhã. Excelente novidade para a hotelaria da cidade. 

 

 

 

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Luxo segundo a Forbes Verified List

Quando vai terminando o ano, sempre “pipocam” listas de destinos, hotéis e spas para ficarmos de olho no ano seguinte. Aqui nos Inspectors nós sempre adoramos estas listas! Mas com tantas listas de “melhores hotéis” circulando mundo afora e uma definição cada vez mais heterogênea (e muitas vezes confusa) do que seria luxo se espalhando por aí, o Forbes Travel Guide, guia de viagens da americana Forbes, resolveu inovar.

Imagem: Forbes website

Internacionalmente celebrado por sempre destacar os melhores hotéis do mundo, o guia acaba de lançar esse mês uma nova medida para elencar os seus hotéis prediletos: o selo “Forbes Verified List” , que destaca propriedades com níveis de luxo e serviço excepcionais. A ideia da publicação é garantir aos seus leitores que a percepção de luxo nas propriedades selecionadas seja realmente indiscutível, independentemente das referências pessoais de cada viajante. 

O novo selo traz duas coleções: de melhores hotéis e de melhores spas do mundo – e a ideia é que as listas sejam atualizadas anualmente. Para este 2018, foram selecionados 58 hotéis (52 cinco estrelas e seis quatro estrelas) e 30 spas em 17 países diferentes, cuja qualidade e padrão de serviços realmente se destacam no mercado de luxo. 

A excelência de serviço dos hotéis do grupo Mandarin Oriental é destaque na lista. Foto: Divulgação

A nova verified list considerou mais de novecentos critérios diferentes de exigências do mercado de luxo, com inspetores anônimos da Forbes (que se hospedaram em mais de mil hotéis em 60 países) e hóspedes regulares avaliando conjuntamente as experiências em cada propriedade, incluindo não apenas as instalações e serviços em geral, mas também levando em consideração o ambiente geral, a qualidade das amenidades e diversos outros itens. Estados Unidos, China, Indonésia, Itália e México são os cinco países com mais hotéis e spas nas listas, incluindo destinos como Macau, Las Vegas, Nova York, Bali, Los Angeles, Londres, Hong Kong e Manila.

Para os hotéis, critérios como ter arredores peculiares, fazer bom uso do “sense of place” (deixando óbvio o destino em que se inserem), investir nos “thoughtful touches” (das toalhinhas geladas da academia às flores frescas e bilhetes escritos à mão nos quartos), as paisagens à vista, o conforto excepcional nos quartos, a apresentação caprichada de alimentos e bebidas e atenção extra ao design foram levados muito a sério durante o levantamento.  Dentre os destacados na lista, o grupo Mandarin Oriental foi o mais premiado, com sete hotéis (Milão, Munique, Nova York, Bangkok, Hong Kong, The Landmark e Singapura) selecionados. 

Detalhe do Nizuc Resort & Spa, no México. Foto: Mari Campos

Para os spas, itens como o nível de relaxamento/privacidade/conforto/ silêncio dentro da sala de tratamento, o espaço e conforto das áreas públicas, a fartura (e qualidade) das amenidades de higiene e beleza e a combinação de elementos sensoriais com o “sense of place” foram também levados em consideração.  Neste quesito, o mesmo Mandarin Oriental foi novamente o grupo mais premiado, com seus spas nos hotéis de Miami, Cantão, Singapura e Tóquio entre os mais detacados. Também foi selecionado o spa ESPA do adorável NIZUC Resort & Spa , no México, que acabo de experimentar – um dos mais surpreendentes e consistentes spas que conheci nos últimos tempos (falarei mais sobre o spa e o hotel em si por aqui em breve). 

Tanto para hotéis como para spas, a qualidade das instalações e serviços associada às ideias de “personalização e busca pelo extraordinário e excepcional” norteou as avaliações finais da Forbes para essa nova lista – o que tem muito a ver com o que nós, seus “hotel inspectors” de estimação, sempre levamos em consideração ao avaliar os hotéis de luxo nos quais nos hospedamos. Porque no mercado de luxo já não basta mais ser bom; é preciso mesmo ser excepcional, surpreender e tratar cada hóspede individualmente. 

Dá pra conferir a nova verified list de hotéis da Forbes aqui e sua lista dos melhores spas aqui. Para sonhar acordado. 

Cotton House: oásis em Barcelona

Cheguei em Barcelona na semana passada sob um calor surreal. A cidade estava mais abafada do que nunca e só de pisar na rua a gente sentia. Assim que cheguei ao balcão do Cotton House Hotel, a recepcionista disparou: “Faz muito calor lá fora, não? Prefere um copo d’agua ou uma taça de cava para refrescar enquanto faço seu check in?”.

Convidada a conhecer o hotel neste verão europeu, minha estada no hotel – que tem meros 3 anos de existência, fica na Gran Via, a três quadras do Paseig de Gràcia, e integra o seleto portfólio da Autograph Collection – foi uma mistura bem bolada de serviço atencioso e caprichado com uma informalidade acolhedora por parte do staff (todo bastante jovem, diga-se de passagem).

A piscina do último andar tem vista para o Eixample, as montanhas e a Sagrada Família. Foto: Mari Campos

A Autograph Collection, bandeira da Marriott que reúne hotéis boutique independentes em diversos cantos do planeta, se consolidou por reunir hotéis únicos, fora do comum (“exactly like nothing else”, como diz seu slogan), cheios de design, com foco em experiências singulares e extremamente conectados com o destino em que se instalaram. E o Cotton House Hotel é uma perfeita tradução dos valores da marca. 

Ocupando a antiga sede da Fundación Textil Algodonera, em um emblemático edifício do século XIX totalmente repaginado pelas mãos do designer Lázaro Rosa-Violán (um dos mais badalados da Espanha na atualidade), o hotel mistura muito bem a sofisticação contemporânea com história e funcionalidade – e valoriza muito a cidade onde está.

A escada espiral suspensa de 1957 foi preservada. Foto: Mari Campos

Vários elementos originais do edifício foram conservados, como o incrível teto da Library (a belíssima biblioteca que é puro sossego e, sem dúvidas, o cômodo mais bonito e fotografado de todo o hotel), a imponente escada de mármore de um lado, a impressionante escada espiral de 1957 do outro (suspensa pelo último andar ao invés de presa ao térreo), o delicado parquet do piso… Ao mesmo tempo, todas as facilidades contemporâneas estão lá (incluindo muitas tomadas e entradas USB nos quartos), wifi de excelente qualidade e móveis de design arrojado que dão a tônica aqui e ali nas áreas comuns. 

O passado têxtil do edifício também é honrado em uma das experiências exclusivas que o hotel oferece aos seus hóspedes: a possibilidade de confeccionar uma camisa sob medida com os alfaiates da Santa Eulalia, os mais premiados de Barcelona.

O Cotton Room tem décor muito leve e adorável terraço para o Eixample. Foto: Mari Campos

Os 83 quartos são puro sossego: todos muito luminosos, cores clarinhas, quietos, e sempre com um toque de algodão na decoração (da plantinha em si aos delicados papéis de parede de inspiração botânica) para lembrar o passado do edifício. A gente sequer tem noção de que o hotel tem esta quantidade de quartos, dado o sossego constante em todas as áreas.

Meu quarto era do tipo Cotton room (há diferentes tipos de quarto, incluindo sete suítes), que tem sempre um adorável terraço privativo olhando para o pátio do hotel e os predinhos típicos do Eixample (perfeito para tomar o primeiro cafezinho da manhã). Cama King size, poltrona, boa mesa de trabalho, Nespresso, banheiro grande com banheira e ducha, luxuosas amenidades de banho 100% naturais e mediterrâneas da marca Ortigia da Sicília e uma completíssima “amenities box” que incluía até escova de cabelos.  O meu quarto era no segundo andar e tinha mesmo vista apenas para o pátio e predinhos do entorno, mas me disseram que os quartos dos andares mais altos chegam a ver o mar. 

Detalhe do Batuar Bar e Restaurante. Foto: Mari Campos

Um importante diferencial do Cotton House em relação a outros hotéis de luxo da cidade é que seu público é essencialmente leisure. Você não vê nunca viajantes a trabalho e sim somente casais, famílias, grupos de amigos e solo travelers, todos a lazer, o que garante um ambiente o tempo todo extremamente casual e relaxado à propriedade. O staff também é sempre muito informal (apesar de chamar os hóspedes pelos nomes e ser sempre solícito), a “welcome message” no quarto é escrita com battom no espelho e a própria área dos concierges é adoravelmente chamada de Gossypium. 

Das áreas comuns, além da biblioteca e da incrível lap pool no rooftop (com vista espetacular para a cidade e a Sagrada família!), destaque para o Batuar Bar & Restaurant. É ali, tanto no belo ambiente interno quanto no charmoso pátio, que o café da manhã em estilo buffet (mas com pratos quentes à la carte) é servido todos os dias até 11h da manhã, e também funciona para almoço e jantar com cozinha Catalã contemporânea (destaque absoluto para as tapas da casa, excelentes!). Ressalva apenas para o serviço de bebidas e pratos quentes no café da manhã, que é bastante lento. Falo mais sobre o restaurante e o bar do hotel neste meu texto para o Estadão. 

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A batalha das amenidades na hotelaria

Desde muito novinha, percebi que, fosse uma pousadinha em São Tomé das Letras ou um hotelão numa capital europeia, as condições do banheiro influenciavam diretamente o quanto eu gostava ou não de uma propriedade hoteleira. Até hoje, um banheiro espaçoso, bem pensado e bem equipado (e muito limpo, obviamente) me é mais importante que um quarto cheio de rococós.  E sei bem que não sou a única a achar que o banheiro de um hotel e suas amenidades são capazes de dizer muito sobre um hotel. 

Se até quinze ou vinte anos atrás as amenidades hoteleiras eram simplesmente commodities e ninguém dava lá muita bola para elas (muito menos investia grandes somas nisso), hoje, mais do que nunca, elas são parte importante do chamado “efeito wow” que um hotel quer ter sobre seus hóspedes.  E isso não se restringe à hotelaria de luxo. 

Banheiro com vista no Shangri-la Toronto. Foto: Mari Campos

A última década, sobretudo, trouxe mudanças radicais na indústria hoteleira em vários aspectos (amplificadas inclusive pelas redes sociais) e as amenidades de toilette não passaram incólumes neste turbilhão.  Também há que se levar em consideração que, motivados pelas cada vez maiores restrições de segurança dos aeroportos (ou até pelos custos crescentes de bagagens despachadas), hoje em dia boa parte dos hóspedes realmente utiliza as amenidades de higiene do hotel durante sua estadia – e muitos obviamente levam as embalagens sobressalentes para casa ou para viagens futuras (que atire a primeira pedra que nunca o fez). 

O negócio ficou tão sério que existe até um termo curioso para descrever essa constante busca dos hotéis por novas amenidades (não apenas de higiene e beleza) para seus hóspedes: amenity creep.  Hoje, há amplas pesquisas sobre o tema com hóspedes de mercados diferentes (tive a oportunidade de responder recentemente a uma pesquisa do grupo Sofitel, por exemplo) e muitas propriedades e redes levam em consideração não apenas a fragrância mas também fatores como o toque e a consistência do produto, ou a facilidade de abrir a embalagem ou ler o rótulo, antes de se decidir por esta ou aquela marca. Buscar produtos que não tenham perfumes tão marcantes e possam ser considerados “unissex” também é importante.

Banheiro aberto para piscina e o mar no Four Seasons Seychelles, com amenidades produzidas localmente com ingredientes da própria ilha: sim, queremos. Foto: Divulgação

Algumas redes hoteleiras de luxo têm agora um profissional (ou até mesmo um setor) inteiramente dedicado a isso. A rede Four Seasons, por exemplo, possui um setor de “Design e Desenvolvimento de Produtos” que periodicamente pesquisa e testa novas marcas e produtos que possam interessar às suas propriedades. Muitas marcas e redes hoteleiras também fazem uso de diferentes linhas e marcas de amenidades para atender a diferentes demandas geográficas (afinal, as percepções de uma mesma fragância também variam em diferentes partes do mundo e é preciso levar isso em consideração). A ideia do serviço customizado na hotelaria também se aplica a isso. No caso dos hotéis Four Seasons, trabalham hoje com uma “coleção” de 19 marcas de amenidades diferentes, dependendo do mercado – e para chegar a estas 19 pesquisaram mais de 170 marcas ao longo de um ano. 

O processo de seleção de uma determinada marca de amenidades costuma ser definido pelo alinhamento da mesma (imagem, estilo, valores etc) com o hotel ou rede que irá utilizá-la – principalmente no mercado upscale e de luxo.  E, independentemente das preferências pessoais, é fato reconhecido no mercado que o hóspede atribui muito mais valor ao preço que paga por uma diária ao encontrar no banheiro amenidades de marcas reconhecidas (sobretudo as grandes, como Acqua di Parma, Le Prairie, Hermès, Bulgari, Salvatore Ferragamo etc) ao invés de frascos com o nome do próprio hotel (as chamadas unbranded amenities, que infelizmente ainda são usadas até por algumas unidades de hotéis de luxo, como alguns Ritz-Carlton). Sem surpresa, pesquisas do setor também confirmam que nos mercados em desenvolvimento (Brasil incluído, é claro) o uso de uma marca conhecida é ainda muito mais importante que nos mercados desenvolvidos. 

O uso de produtos locais nas amenidades é visto como importante em alguns destinos (principalmente se levarem ingredientes naturais locais, como o óleo Immortelle na Córsega, por exemplo), mas as pesquisas mais recentes confirmam que a afiliação do hotel a uma marca de beleza internacionalmente reconhecida ainda é mais importante para a maioria dos hóspedes, independentemente do perfil do viajante.  O downside é que, por mais que hotéis e redes tentem ser mais sustentáveis e ecologicamente corretos, as chamadas “bulk amenities” (os grandes displays reutilizáveis de shampoo, condicionador, shower gel etc, muitas vezes acoplados à parede) ainda são mal vistos pela maioria dos hóspedes, sobretudo no mercado de luxo – mesmo quando fornecidas por uma marca internacionalmente conhecida. Uma pena. 

 

 

 

 

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