Anavilhanas Amazonia

WTM: hotelaria precisa ser mais sustentável e inclusiva

Na semana passada, aconteceu a primeira edição 100% virtual da WTM Latin America. Sob o comando de Simon Mayle, a nova edição do evento foi um sucesso e ganhou até um inesperado dia extra. E, dentre discussões frequentes sobre inclusão, equidade de gênero, empregabilidade, tecnologias, reabertura de destinos e sustentabilidade, um alerta constante: a hotelaria precisa ser mais sustentável e inclusiva urgentemente.

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Afinal, não basta apenas falarmos constantemente sobre ESGs; é preciso que a indústria hoteleira pratique ações cotidianas realmente condizentes com esse discurso. E que proprietários, gerentes, colaboradores, moradores e hóspedes sejam educados constantemente para o engajamento. 

Novos modelos de negócios, novos produtos e até mesmo novos mercados surgiram em meio à crise gerada pela pandemia. Tudo isso constitui novas possibilidades de se engajar de fato nas transformações necessárias ao setor, desde já, mesmo que resultados mais significativos só apareçam no médio prazo. 

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Foto: Mari Campos

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HOTELARIA PRECISA SER MAIS SUSTENTÁVEL E INCLUSIVA JÁ

A digitalização acelerada, demandas de sustentabilidade e necessidade de inovação constante já são realidade para a maior parte do mercado hoteleiro, seja no Brasil ou no exterior. A pandemia mudou não apenas procedimentos e logísticas, mas também prioridades. 

Novas tecnologias tornaram-se o grande “capacitador”, e é preciso tirar proveito cada vez melhor delas a curto, médio e longo prazo – inclusive como ferramentas de fomento à sustentabilidade e à inclusão real dos estabelecimentos. A inovação foi a chave para qualquer adaptação feita pela indústria da hospitalidade nesse período.

Marília Borges, da Euromonitor, defendeu em sua palestra que é fundamental focar em sustentabilidade, saúde, necessidades do consumidor e tecnologias/digitalização de processos para a própria recuperação do setor. “Vimos os problemas do modo como o turismo funcionava pré-pandemia e hoje temos novas prioridades – e novas necessidades foram criadas também”, disse. 

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Soneva Maldivas
Foto: Soneva Maldivas

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CHEGA DE SUSTENTABILIDADE DE FACHADA

Os conteúdos criados especialmente para a WTM Latin America ressaltaram constantemente a necessidade de ampliar a conscientização sobre todas as esferas da sustentabilidade para hóspedes, staff e investidores. “A hotelaria tem que sair do paradoxo de que sustentabilidade é custo”, afirmou Antonietta Varlese, da Accor Hotels, durante o evento. “A gente ainda tem que insistir muito nisso, infelizmente. Mas fico feliz que hoje a maioria dos nossos parceiros já entende bem isso e apoia”, completou. 

Ela contou que há anos a empresa investe constantemente em educação e engajamento de pessoas, sejam comunidades locais, funcionários ou hóspedes. “Os índices de ESG não podem ser da boca para fora porque são analisados pelo mercado financeiro o tempo todo. Também não adianta falar que tem algo e consumidor chegar lá e não ter, isso é terrível”, alertou. 

O programa Accor Solidarity destina anualmente uma verba global para que seus hotéis apoiem entidades regionais – trabalhando sempre para que os projetos assistidos pelo grupo possam ser autossuficientes com o passar do tempo. Segundo Antonietta, a maioria dos projetos de sustentabilidade apoiados pela Accor foi indicada pelos próprios funcionários da rede, mantendo real engajamento dos mesmos.

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NECESSIDADE DE REGENERAÇÃO É URGENTE

Durante a WTM Latin America, diferentes participantes dos painéis reforçaram também ser essencial investir continuamente em capacitação local para promover sustentabilidade real. Integrar hotel, população local e turistas é fundamental.  Assim, parte significativa da renda permanece de fato no próprio destino da propriedade. A hotelaria precisa ser mais sustentável e inclusiva, fazendo a roda da sustentabilidade gerar regenerativamente em seus negócios e destinos. 

Há casos incrivelmente bem sucedidos de sustentabilidade real e regenerativa na indústria da hospitalidade no mundo todo. Inclusive em várias propriedades que já citei em diferentes oportunidades aqui na coluna mesmo, como os brasileiros Anavilhanas Jungle Lodge e Casa Turquesa, os impecáveis lodges africanos da Great Plains Conservation, o resort polinésio The Brando e tantos outros bons exemplos. Também abordo o tema frequentemente em matérias para outros veículos, na minha coluna no Estadão ou no meu Instagram @maricampos

Hotelaria sustentável de fato, que não apele para sustentabilidade de fachada, que não ache que pedir aos hóspedes para “economizar” toalhas durante a estadia é suficiente, é não apenas essencial para a sobrevivência do setor como urgente. Não apenas porque vivemos a pior crise climática da história, com um futuro próximo já trágico (o relatório do IPCC deste mês deixou isso bem evidente), mas também porque o hóspede vai demandar cada vez mais ações concretas da indústria da hospitalidade nesta direção. 

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Foto: Divulgação/Mandarin Oriental

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DIVERSIDADE PRECISA GERAR MAIOR INCLUSÃO 

A necessidade de gerar mais diversidade e inclusão real na hotelaria e em todo o trade turístico também esteve presente nas pautas de muitas das discussões e painéis do evento.  Concluiu-se que ações relacionadas a elas precisam urgentemente sair do escopo do marketing e tornar-se realidade nas empresas que gerem os produtos turísticos. “Diversidade é convidar para o baile; inclusão é quando você convida para dançar”, citou Hubber Clemente, do Afroturismo HUB.  “Podemos ser mais diversos e inclusivos no turismo sim”. 

Afinal, o turismo sempre foi visto como um setor “naturalmente diverso”, mas a diversidade TEM que gerar real inclusão na hospitalidade. “Hotelaria é feita por pessoas, para pessoas. Todas as mudanças sociais têm que ser acompanhadas pelo setor, o tempo todo”, lembrou Antonietta, da Accor. 

Se iniciativas públicas podem demorar muito para acontecer nesse setor, da ótica da iniciativa privada é possível – e necessário – começar agora mesmo. Muitas propriedades, de pequenas pousadas a grandes hotéis, felizmente já começaram essa batalha há muito tempo. Esperemos agora que muitas outras se juntem urgentemente a elas. 

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Casa Turquesa Paraty

A hospitalidade mais em evidência do que nunca

Depois de tantos e tantos meses olhando para as paredes das nossas próprias casas, agora, com o calendário de vacinação finalmente começando a lentamente avançar no Brasil, mais e mais pessoas estão voltando a programar (ou cogitar) viagens. E a hospitalidade está mais evidência do que nunca.

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No começo do ano, escrevi aqui na coluna sobre como o brasileiro passou a dar muito mais importância para suas acomodações de viagem durante a pandemia. Viajantes estão agora focando menos nos atrativos turísticos dos lugares que visitam e muito mais nos hotéis, pousadas e imóveis de temporada escolhidos para suas viagens. Uma tendência em ascensão, independentemente do nicho e estilo de viagem, confirmada em pesquisas recentes do Airbnb, Booking, Euromonitor e outros.

Tem sido justamente através da indústria da hospitalidade que boa parte das novas experiências de viagem destes tempos têm acontecido. E hotéis, pousadas e imóveis de temporada que entenderam isso estão saindo na frente nessa corrida há meses. 

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A hospitalidade mais em evidência do que nunca

Nos últimos meses, as pessoas têm procurado cada vez mais por algo “diferente” ou “especial” nos lugares nos quais se hospedam. Foi-se o tempo em que hotel era considerado “lugar para tomar banho, dormir e tomar café” pelo brasileiro médio.

Portanto, a hospedagem agora passa a ser aspecto fundamental da viagem de cada vez mais gente, e é preciso atender com excelência e criatividade essa demanda. A tendência tem se refletido na cobertura jornalística de turismo em geral nesse período, que também tem colocado a indústria da hospitalidade mais em evidência do que nunca – gerando uma demanda ainda maior nesse sentido.

Em minha viagem a Paraty, RJ, agora em junho, hospedada na sempre incrível Casa Turquesa (uma das minhas hospedagens preferidas no país e sem dúvidas uma das melhores no Brasil), encontrei diferentes hóspedes (inclusive alguns hóspedes frequentes) que estavam ali pela propriedade em si e não pelo destino. Mostrei detalhes dessa estadia adorável no meu instagram @maricampos

Todos concordaram sobre as belezas naturais e históricas da cidade; mas afirmaram sem rodeios que a escolha da hospedagem tinha sido muito mais importante do que a escolha do destino em si. A capacidade de uma propriedade garantir real segurança nesses tempos, ser sustentável, ampliar seu menu de serviços, informatizar atendimentos (do check in às reservas de serviços sem contato) e seguir antecipando os desejos dos hóspedes foi fator primordial na escolha. Não à toa, a Casa Turquesa tem testemunhado a maior ocupação de seus treze anos de existência.

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Fatores fundamentais para a sobrevivência da indústria da hospitalidade

Um estudo recente da Traveller Made, em parceria com o Glion Institute of Higher Education, elencou dentre os principais fatores para a sobrevivência da indústria da hospitalidade no mundo durante a pandemia o aprimoramento da experiência do hóspede por meio da tecnologia, a criação de novos serviços e produtos, e os constantes treinamentos e apoio físico e mental ao staff (afinal, staff feliz é o melhor caminho para o hóspede satisfeito).

Segundo o estudo, mudar a função de quartos ociosos em tantas propriedades durante o primeiro ano da pandemia (seja como room office, como pop up bares e restaurantes, espaços para experiências gastronômicas privativas etc) foi um dos principais pontos que ajudaram hoteleiros a pensar em outras propostas de novos serviços a serem oferecidos, e também em novas utilizações para espaços pré-existentes. A Traveller Made cita também a importância do crescimento de até 80% das staycations e a implementação de novos espaços funcionais ao ar livre nesse processo. 

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Cinco aspectos INCONTORNÁVEIS

Na hotelaria brasileira, hoteleiros que vêm enfrentando a pandemia com boas taxas de ocupação em suas propriedades têm destacado em geral cinco aspectos que consideram “incontornáveis” para assegurar o bom desempenho nesses tempos duros:

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1. Segurança sanitária

Hóspedes prestam cada vez mais atenção e valorizam cada vez mais os diferentes procedimentos hoteleiros para garantir segurança, higiene e saúde durante a estadia. Mas é fundamental ser extremamente claro na comunicação de tais “protocolos” para inspirar confiabilidade. 

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2. Informatização

É desafio necessário manter a calidez e a eficiência do serviço com distanciamento social, priorizando cada vez mais operações sem contato (a digitalização de operações já é vista como fundamental para boa parte dos hóspedes no quesito “segurança). A digitalização de serviços abriu caminho para novas e bem-vindas maneiras de receber hóspedes com qualidade e respeito absoluto aos protocolos sanitários obrigatórios desses tempos.

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3. Trabalho remoto

O trabalho remoto tem ajudado sobremaneira a hotelaria brasileira a melhorar seus índices de ocupação (inclusive com estadias em média muito mais longas). Há destinos inteiros cada vez mais interessados nesse público, como mostrei recentemente em matéria para o UOL. O nomadismo digital já é uma realidade para parcela significativa dos viajantes, e a hotelaria precisa estar preparada para essa nova necessidade dos hóspedes. 

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4. Sustentabilidade

O real envolvimento de hotéis e pousadas com sustentabilidade (ambiental, econômica, social e cultural) passou a ser um dos critérios prioritários de escolhas de viagem para muito mais gente (71% dos entrevistados em estudo da Booking e 51% em estudo do Airbnb, por exemplo). O viajante está cada vez mais consciente dos impactos que suas decisões de viagem geram.

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5. Bem-estar

Segundo o Global Wellness Tourism Economy Report, o turismo de bem-estar já responde por cerca de 17% de toda a receita da indústria turística – e cresce mais e mais rápido que o turismo em geral. E a indústria da hospitalidade finalmente começa a entender que oferecer opções voltadas para o bem-estar vai muito além de pratos saudáveis no menu e massagens relaxantes no spa. 

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Reinvenção AINDA é a palavra chave

Reinvenção tem sido uma palavra frequentemente proferida pela maioria dos hoteleiros com os quais conversei nos últimos meses. Afinal, hotéis e pousadas perceberam que, com os hóspedes passando cada vez mais tempo nos lugares nos quais se hospedam, é fundamental adaptar operações, ambientes e serviços para tornar esses lugares ainda mais acolhedores e interessantes.

Sejam estas mudanças temporárias ou permanentes, a hotelaria bem-sucedida tem estado extremamente atenta às mudanças de comportamento e de padrão de gastos e consumo dos hóspedes. Portanto, com criatividade, inovação e competitividade, o hoteleiro precisa estar realmente alinhado às necessidades sociais vigentes – para muuuuuito além dos famigerados protocolos sanitários. 

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Desafios da hotelaria na Amazônia na pandemia

A hotelaria amazônica brasileira sempre viveu grandes desafios, desde os primórdios da exploração turística legal da região. Para começo de conversa, a complicada logística de administração geral, acesso e treinamento de mão-de-obra em locais tão remotos pode exigir verdadeiros malabarismos. Além disso, até hoje são poucas as propriedades que, a exemplo dos melhores lodges africanos, criaram experiências verdadeiramente confortáveis e sustentáveis que sejam condizentes com suas tarifas (assunto esse para uma próxima coluna). Mas 2020 elevou a outro patamar os desafios da hotelaria na Amazônia na pandemia. 

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Segundo pesquisa Raio-X do Turismo Frente à Covid-19, realizada pela Rede Observatório de Turismo da Universidade do Amazonas (em parceria com a Amazonastur), o turismo no estado do Amazonas registrou queda média de 72% no faturamento das agências locais e de 70% nos hotéis. A situação fica ainda mais complicada quando chegamos ao turismo de selva. Não apenas hotéis e lodges de selva sofreram o imenso baque da pandemia (fechamento, cancelamento de reservas, reembolsos etc) mas, sobretudo, comunidades inteiras assistidas pelos mesmos tiveram redução brusca de renda. 

Para muitas destas comunidades, sua renda depende em grande parte do movimento turístico, seja pela venda de artesanato ou por sua participação nas equipes dos lodges e atividades de eco-turismo. Muitos empreendimentos da região demitiram boa parte dos funcionários no começo da pandemia. E a lenta recuperação do setor desde a reabertura do turismo na região não está ajudando; afinal, o turismo ali era majoritariamente movimentado pelos turistas estrangeiros, cujo retorno ainda segue sem nenhuma previsão.

Entidades e grupos como a Fundação Amazonas Sustentável (FAS) criaram diferentes iniciativas locais para ajudar essas comunidades ao longo destes sete meses de pandemia. Mas uma parte fundamental da ajuda para algumas comunidades amazônicas sempre veio da hotelaria. 

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Cuidar das comunidades é a base da sustentabilidade 

Para muitas comunidades, as atividades turísticas na região começaram como renda complementar, mas acabaram se tornando fonte principal de renda com o passar dos anos e o maior desenvolvimento do potencial turístico local.  E algumas propriedades felizmente têm clara noção disso. 

“Nossa principal comunidade é a dos funcionários dos nossos dois hotéis”, afirma Guto Costa Filho, proprietário do Anavilhanas Jungle Lodge, no Parque Nacional Anavilhanas, e do Villa Amazônia, em Manaus. “O Anavilhanas é hoje o maior empregador privado do município de Novo Airão e o Villa Amazônia em Manaus é um importante formador de mão de obra qualificada para serviços de alto padrão. Nestes meses de pandemia, dispensamos apenas os funcionários recém-contratados, que ainda estavam em período de experiência, e cuidamos para garantir a todos rendimentos próximos aos níveis pré-pandemia, aumentando também a cesta de produtos oferecidos aos funcionários dos hotéis”.

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Ao mesmo tempo, cuidaram também das comunidades do entorno da propriedade, especificamente as comunidades do Santo Antonio e do Tiririca, levando cestas básicas quinzenalmente para que os moradores não se vissem forçados a procurar novas alternativas de renda, muitas vezes ilegais. “Mantivemos também o projeto de construção da escola do Aracari, que entregará, em parceria com a comunidade, um novo modelo de escola comunitária, pensado para acolher as crianças de diversas idades em salas arejadas, claras e amplas, seguindo as técnicas construtivas locais”, diz.

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Desafios em sequência durante o ano

Mas os desafios da hotelaria na Amazônia na pandemia não pararam por aí, é claro. Guto conta que 2020 vinha sendo um ano com demandas crescentes nos hotéis, com a grande maioria das reservas do primeiro semestre pré-pagas – mas foram todas reembolsadas com a onda de cancelamentos em março e abril. “Os desafios vieram em etapas e foram muitos. Do dia para noite tivemos que cancelar reservas confirmadas, devolver os valores pagos e pensar em como manter nossos 128 funcionários enquanto não saía a proposta formal do governo para manutenção de empregos. Nesses 7 meses, assistimos nosso principal mercado desaparecer por completo com o desaparecimento dos estrangeiros”, desabafa.

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O Anavilhanas Jungle Lodge é sem dúvidas um dos mais consistentes exemplos de hotelaria de qualidade na região (dá para ver bastante da minha última viagem para lá também no meu instagram). Localizado ao lado do município de Novo Airão, tem acesso descomplicado de carro a partir de Manaus em uma viagem de duas horas.

Instalado à beira-rio, tem acomodações extremamente confortáveis, serviço atencioso, excelente gastronomia e sempre foi inteiramente focado em sustentabilidade. Painéis solares garantem até ar condicionado em perfeito funcionamento em todas as acomodações, por exemplo. Além disso, foi talvez a única propriedade hoteleira amazônica no Brasil que já abriu suas portas com todos os alvarás aprovados. Em alguns aspectos, já pregava o distanciamento social desde antes da pandemia, com quartos em estilo chalé e bangalô imersos na floresta tropical e passeios em grupos muito reduzidos.

Guto conta também que, nos longos meses em que estiveram fechados, decidiram tocar adiante as melhorias e reformas, aproveitando o período sem hóspedes para modernizar e atualizar as propriedades. “Além disso, em maio começamos a estudar os protocolos e pensar em como adapta-los à realidade de um hotel urbano e outro de floresta, que opera também passeios, traslados e refeições”. 

Foram meses de treinamento da equipe, implantação dos novos protocolos, comunicação com o trade e clientes diretos, e espera pela reabertura dos Parques Nacionais e dos rios até o hotel poder reabrir em segurança. E ainda mais redondinho do que já era.

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Respostas rápidas para os desafios da hotelaria na Amazônia na pandemia

A Expedição Katerre (que promove itinerários em barco pela região) e o hotel Mirante do Gavião Amazon Lodge (em Novo Airão) foram fundadas dentro dos princípios Turismo de Base Comunitária e desde 2004 incluem a participação das população local em suas atividades. Também focadas em sustentabilidade, ambas estão entre as empresas mantenedoras da Fundação Almerinda Malaquias, em Novo Airão, garantindo 70% do orçamento anual necessário para a sobrevivência da instituição. 

A Fundação possui um centro de educação multidisciplinar ambiental e de formação profissional que promove amplo trabalho de capacitação e geração de renda, mantendo mais de 40 famílias na região. O trabalho artesanal da Fundação é sustentável, partindo do reaproveitamento das sobras de madeiras nobres amazônicas descartadas pela indústria, e gera pratos, fruteiras, talheres, brinquedos e até bolsas clutch.

Antes da pandemia, 80% da renda com a venda dos produtos era oriunda dos turistas visitantes. Quando os turistas desapareceram completamente em abril, uma resposta rápida foi fundamental para enfrentar alguns desses desafios da hotelaria na Amazônia na pandemia. Uma força-tarefa da Expedição Katerre e do Mirante do Gavião Lodge colocou no ar rapidamente uma loja virtual para que os produtos da Fundação Almerinda Malaquias fossem vistos e comercializados no país todo.  E a iniciativa deu muito certo. 

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A importância de um trabalho conjunto em toda a cadeia do turismo

A hotelaria sobre as águas na região também tem bons exemplos. As embarcações Belle Amazon e Amazon Dolphin, que atuam na região dos rios Tapajós e Arapiuns e são operadas pela Turismo Consciente e pela Cap Amazon, retomaram as atividades turísticas nas comunidades ribeirinhas na região da Floresta Nacional (FLONA) após um semestre inteiro de fechamento absoluto. 

Para preparar uma retomada segura para todos na região, Turismo Consciente e Cap Amazon promoveram encontros com líderes de seis comunidades locais para levar as mais atualizadas informações sanitárias oficiais sobre a pandemia e difundir os principais protocolos do setor. “Os moradores querem os visitantes de volta, mas querem que a retomada seja feita de forma ordenada, sem riscos de contaminação. Alertamos para a necessidade de que todos os envolvidos na cadeia do turismo (operadores, agências, visitantes) respeitem e cumpram os protocolos”, avisa Keissiane Maduro, indígena Borari que é administradora de operações da Turismo Consciente.

As comunidades ali estão agora entrando na terceira etapa do Plano de Reabertura Gradual elaborado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). “Os moradores da floresta são nossos parceiros comerciais, fornecedores e gestores. Nossa atuação está muito longe do discurso raso e assitencialista de ‘caridade’. Nossa relação é sempre de respeito e responsabilidade de ambas partes”, diz Maria Teresa Meinberg, sócia-proprietária da Turismo Consciente. 

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A oportunidade agora vem do turismo nacional

Mesmo com as fronteiras reabertas para o turista estrangeiro, ele ainda não chegou e não há nenhuma previsão ainda de quando voltará a ter presença significativa na Amazônia brasileira. “Manaus é um exemplo de como a imagem de um destino pode ser afetada devido à pandemia pela alta em número de contágios e mortes. Apesar da situação já estar sob controle, a imagem não está – e esse será o desafio do Brasil como destino turístico para mundo. Temos que (re) trabalhar nossa imagem com muito esforço”, diz Simone Scorsato, diretora da BLTA (Brazilian Luxury Travel Association), associação sem fins lucrativos que reúne alguns dos principais hotéis e operadores de luxo do Brasil – e que divulga e promove o país focando em autenticidade e sustentabilidade.

Mas em um mundo com tantas fronteiras ainda fechadas para os brasileiros, diante da impossibilidade de viajar ao exterior muitos turistas nacionais podem se abrir enfim à oportunidade de fazer alguma grande viagem pelo Brasil há tempos adiada. E a Amazônia (seja pela complexa logística de acesso, seja pelos altos custos normalmente envolvidos) provavelmente está no topo desta lista para muita gente.

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Eis aí uma oportunidade importante para enfrentar os desafios da hotelaria na Amazônia na pandemia. Jean-Philipe Pérol, sócio-administrador dos barcos Belle Amazon e Amazon Dolphin, faz questão de destacar: “O destino Amazônia é uma das grandes tendências do turismo pós-crise, com o aumento da procura por lugares preservados e isolados”. 

Hotéis de selva verdadeiramente sustentáveis podem ser uma bela alternativa para quem busca viagens seguras no Brasil durante a pandemia. E, felizmente, mesmo que de maneira lenta, já começam a sentir essa demanda nacional. “Os hóspedes começaram a voltar lentamente. Vemos uma retomada da demanda bastante promissora do público doméstico”, afirma Guto Costa Filho, do Anavilhanas. “Pouco a pouco vamos percebendo que o turismo e a vontade de conhecer outras realidades são necessidades fundamentais para a saúde mental de nossa sociedade”.

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Sustentabilidade na hotelaria no sul da Bahia

Há algum tempo, escrevi neste texto aqui sobre a necessidade da hotelaria encontrar seu equilíbrio com a sustentabilidade, mencionando diversas iniciativas em hotéis no exterior. Agora está na hora de falar um pouco de Brasil. Mais especificamente sobre sustentabilidade no sul da Bahia.

Afinal, há cada vez mais viajantes levando estas iniciativas seriamente em consideração antes de decidir-se ou não pela reserva em um determinado hotel e já entenderam que é preciso muito mais do que colocar nos banheiros aquele aviso para evitar a troca constante de toalhas.

Da água servida em garrafas de vidro nos quartos a sistemas de auto-suficiência energética, felizmente há hotéis levando isso a sério no Brasil também. Mas, infelizmente, eles ainda são pouquíssimos; muitos proprietários ainda preferem, por exemplo, os lucros oriundos da venda de água no frigobar que a iniciativa de oferecer gratuitamente água em garrafas de vidro, como tantas propriedades no exterior já fazem.

Na semana passada, estive em férias pela região sul da Bahia e escolhi me hospedar em duas propriedades hoteleiras com filosofias muito parecidas, e ambas extremamente focadas na sustentabilidade. Entretanto, vale ressaltar desde já que, apesar de muitos avanços e excelentes iniciativas, estas propriedades ainda têm diversas mudanças que poderiam e deveriam implementar diariamente para favorecer a sustentabilidade de seus negócios.

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Em Trancoso, a escolhida foi a Pousada Mata N’ativa, uma pousada de charme a 500 metros do Quadrado e iguais 500 metros da Praia do Nativo. Além da localização acertadíssima, que permite ao hóspede fazer muita coisa sem nem tirar o carro do estacionamento, a pousada é pioneira na região em iniciativas sustentáveis, tendo inclusive selos internacionais de certificação.

Ali as fossas são 100% ecológicas, os quartos ficam dispostos em diferentes predinhos ao redor de um estupendo jardim e o restaurante utiliza somente produtos locais para o preparo das refeições. Mesmo no décor, a escolha foi por móveis, artistas e artesãos locais. Colabora com iniciativas de preservação da região.

Os quartos da Mata N’ativa são bastante confortáveis e contam todos com ar condicionado e varanda e amenidades Trosseau (alguns têm também hidromassagem). As diárias incluem um delicioso café da manhã em estilo buffet (com pratos quentes feitos individualmente na hora) e a infra-estrutura inclui ainda piscina, playground para os pequenos e uma sala para massagens – tudo sempre respeitando o ambiente. Ali até o sistema de wifi é diferenciado para não interferir no jardim de maneira nenhuma.

LEIA MAIS DETALHES SOBRE A POUSADA MATA N’ATIVA AQUI.

Também em Trancoso, a Etnia Casa Hotel (que, aliás, é agora composta por 7 Villas completíssimas, mas sem abrir mão dos serviços de primeira em hotelaria) também é outro bom exemplo de sustentabilidade no sul da Bahia. Prioriza os ingredientes 100% locais, valoriza os ítens locais na decoração e apoia diferentes projetos de sustentabilidade no turismo, como a Associação Despertar Trancoso e a Ilha de Alcatrazes.

Em Arraial D’Ajuda, é o Maitei Hotel quem sai na frente. Localizado a cinco minutos de caminhada da praia do Mucugê, o Maitei é inteiramente focado em sustentabilidade e utiliza 100% energia solar. São apenas 17 quartos, sendo 9 deles com vista para o mar, todos muito espaçosos, incluindo belíssimas varandas. Amenidades L’Occitane, hidromassagem, diferentes espaços de living, sala de massagens, academia e duas piscinas com vista panorâmica para o mar estão entre os atrativos.

Artesãos locais são os responsáveis pelas peças que decoram áreas comuns e quartos e ingredientes da região são a base para a gastronomia caprichada de seu restaurante, do café da manhã ao jantar. O que se faz absolutamente urgente ali é eliminar por completo o uso de plástico na propriedade. Porque não adianta investir nos canudos sustentáveis se água e amenidades ainda são entregues aos hóspedes em embalagens plásticas, certo?

LEIA MAIS DETALHES SOBRE O MAITEI HOTEL AQUI.

Estes exemplos de sustentabilidade no sul da Bahia valem entrar na wish list. Propriedades assim comprometidas ainda são infelizmente raras na hotelaria brasileira mas, de pouquinho em pouquinho, hoteleiros vão felizmente entendendo que é possível (e também parte do seu dever) investir pesado no turismo sustentável sem abrir mão dos altos padrões de serviço, deixando o hóspede duplamente satisfeito.

Dá pra ler mais sobre esta minha viagem e as hospedagens no sul da Bahia aqui e também aqui.

VEJA TAMBÉM: sete ideias para fazer suas viagens mais sustentáveis a partir de agora.

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Como é o novo safári camp Nimali Mara, na Tanzânia

A rede de camps de safári sustentáveis e focados em conservação e preservação da vida selvagem Nimali Africa tem um novo camp na Tanzânia. A rede, que possui também outros dois safári camps na Tanzânia (o Nimali Tarangire, no Parque Nacional Tarangire, a 4h de carro do aeroporto internacional Kilimanjaro, e o Nimali Central, na região central do Serengeti, e que passará por um super upgrade neste 2020), abriu na porção norte do Serengeti o Nimali Mara.

LEIA MAIS sobre o incrível Nimali Mara e safáris na Tanzânia aqui

O novo camp, localizado no parque nacional classificado pela Unesco como Patrimônio da Humanidade, quase na divisa com Maasai Mara (no Quênia), é o primeiro camp de luxo do grupo, com tendas, áreas comuns e serviço impecáveis. Tudo ali foi instalado de maneira 100% sustentável (da “construção” do camp ao dia-a-dia sem plásticos, sem desperdícios, energia solar, tratamento de água etc), respeitando a paisagem espetacular e tão pecuiiar da região. Ali as savanas são repletas de rochas e, das áreas comuns às tendas, tudo no camp levou a geografia local em consideração.

A proximidade com Maasai Mara garante muitos animais à vista e garante ter avistamentos ainda mais espetaculares durante a grande migração, que acontece de julho a setembro com literalmente milhões de animais passando por ali. Outra vantagem da localização é que a parte norte do Serengeti conta com pouquíssimos lodges e camps. Passei dias ali sem praticamente ver outros carros com turistas.

A equipe também merece destaque: das mais afinadas (em todos os sentidos) que já vi em lodges e camps africanos. Chama a atenção que a jovem gerente é a única mulher do grupo – mas lidera com muito carinho e doçura e dá pra ver que todos ali se tornaram uma grande família. E sabem manter os hóspedes satisfeitos e entretidos mesmo nos dias mais chuvosos (peguei muita chuva durante parte da minha estadia ali).

VEJA MAIS detalhes do Nimali Mara e dos safáris na Tanzânia aqui.

A deliciosa área externa das tendas. Foto: Mari Campos.

A beleza do camp chama mesmo a atenção. A arquitetura caprichosa criou dez tendas muito espaçosas, todas elas com uma das faces feita inteiramente de vidro, garantindo vista panorâmica para o Serengeti de absolutamente todos os cômodos. Cada tenda conta com saleta, closet, quarto, imensos banheiros (chuveiro duplo, pia duplo, banheiras de cobre abertas) e uma deliciosa varanda externa com lounge, mesa e cadeiras e uma deliciosa swing bed perfeita para descansar, namorar, ler, meditar.

Além da área de trabalho e das muitas tomadas e entradas USB, todas as tendas contam com wifi de ótima qualidade e – raridade nos camps de luxo similares – telefone e serviço de quarto. A cada manhã os hóspedes são despertados pessoalmente com café ou chá e cookies caseiros. Mas é possível também pedir para jantar no próprio quarto ou mesmo um rosé geladinho à tarde. E mais: como nos demais camps da Nimali, serviços de lavanderia estão sempre incluídos nas diárias.

LEIA AQUI TAMBÉM sobre o incrível Nimali Mara e safáris na Tanzânia

Nas áreas comuns, há living, um delicioso bar, piscina e restaurante, tudo com vista panorâmica para o parque. Os detalhes muito africanos incluem tecidos mil, muita madeira e muito cobre. A gastronomia é caprichadíssima (foram as melhores refeições de toda a minha última viagem à África). Mas eles vão além: ao invés de servir todas as refeições sempre no restaurante, a cada dia o staff do hotel vai criando também cenários diferentes ao longo da estadia de cada hóspede. Sempre uma surpresa diferente (e tudo ali dependendo do clima, é claro). Almoço em plena savana, jantar à luz de velas à beira da piscina, café da manhã no alto de uma das enormes rochas dos arredores… e sempre com capricho: mesas, cadeiras, copos, talheres, toalhas, e um serviço irretocável. Mas até nos dias mais chuvosos foram criativos.

A criatividade, verdade seja dita, parece ser marca registrada do grupo: as outras duas propriedades Nimali (Nimali Tarangire e Nimali Central) também se encarregaram de escolher as “locações” mais incríveis e bem decoradas para os meus sundowners enquanto estive com eles. De fato, dos mais bonitos que já vi (e olha que já fiz MUITO safári na vida).

SAIBA TUDO sobre safáris na África aqui.

Ponto importante na hora de reservar: ao contrário de outros camps similares, o Nimali Mara opera sempre com pensão completa (bebidas incluídas), mas game drives, sundowners e open bar só estão incluídos no sistema “game package”.  

Dá para ler mais sobre minhas aventuras africanas e os melhores camps e lodges de safári aqui.

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A jornalista Mari Campos viajou a convite da Gamewatchers Safaris (que cuidou de todo o itinerário e logística da viagem), da Sariri Terra e da South African Airways.

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