Volta ao tempo nas Aldeias do Xisto, em Portugal

Talasnal e a Serra da Lousã, no Centro de Portugal

Muitas palavras em Portugal podem causar estranheza aos ouvidos brasileiros, seja por possuírmos termos diferentes para os mesmos objetos, seja pela divergência de significados. Mas esse não é o caso aqui. Apesar de ser um tanto quanto inusitado, quando você lê no título “Aldeias do Xisto”, sim estou falando das rochas metamórficas. Literal que é, o português deu tal nome a esse tipo de vilarejo porque ele é construído absolutamente inteiro utilizando as rochas que são conhecidas pelo tom acastanhado.

Espalhadas pelo Centro de Portugal, atualmente 27 aldeias formam a “Rede de Aldeias do Xisto”. Como estão situadas no coração do país, a visita a um desses vilarejos é uma excelente opção para quem viaja de carro entre Lisboa e o Porto (ou vice-versa). Eu cito especificamente viagens de carro porque uma das características das Aldeias do Xisto é que elas estão instaladas em locais inóspitos, afastadas de grandes cidades da região e, não raro, no topo de áreas montanhosas.

Xisto em todos os detalhes

Antes de comentar a experiência de visitar uma Aldeia do Xisto, uma breve explicação do que são exatamente essas vilas. Eu começaria escrevendo “Em meados do século…”, mas não se sabe bem desde quando comunidades vivem nos locais que hoje conhecemos como Aldeias do Xisto. É sabido que romanos, bárbaros e árabes por lá estiveram e, dada a presença de gravuras rupestres (como na região de Zêzere), é possível aferir que haviam moradores até mesmo antes disso. O que é certo é que as Aldeias do Xisto se expandiram ao longo do período medieval, por estarem em meio a rotas comerciais, mas principalmente pela característica agrícola e pastoril das comunidades que ali viviam.

A abundância de xisto na região moldou a arquitetura das vilas, com rochas compondo os passeios, as escadas, os pátios e, obviamente, as grossas paredes que dão corpo às Aldeias. O projeto que sustenta a Rede de Aldeias do Xisto destaca a presença humana como o grande monumento desses vilarejos, “um elemento simbioticamente ligado ao território que o envolve e à comunidade que o sustenta”.

Tal presença, aliás, segue por lá. Apesar do abandono no meio do último século, atualmente as Aldeias do Xisto presenciam um movimento de retomada, com habitações passando por reformas e novos moradores escolhendo a rotina quase que monástica desses locais – para quem busca exatamente esse sossego, uma busca dessas regiões no Airbnb lista diversas opções de hospedagem em casas autênticas de xisto.

A manutenção do vilarejo é bem supervisionada

Aqui entra o relato da minha visita a uma Aldeia do Xisto. A escolhida foi a graciosa Talasnal, em meio a Serra da Lousã, mas falar somente do vilarejo é perder um tanto da experiência. Tudo começa muito antes de chegar a Talasnal, mais precisamente quando da entrada na estrada que leva até ela (estou sendo bem generoso chamando a via de estrada). Por cerca de 30 minutos, um caminho de duas mãos, com espaço para um veículo por vez, em subidas e descidas e extremamente sinuoso. Ao mesmo tempo, cenários incríveis que mesclam mata fechada com pinheiros altíssimos e encostas abertas com vista para as montanhas que abraçam a região. O que eu via desde a estrada já era muito exótico e bonito, e era uma introdução para o que estava por vir.

Ao chegar em Talasnal, a sensação é de volta no tempo. O cenário homogêneo e monocromático, de um repetido tom castanho-acinzentado, me engole conforme vou acessando as ruelas, uma mais estreita que a outra. A Aldeia vive, tem um comércio à disposição dos turistas (alguns que fazem a pé a trilha de 6 km que fiz de carro) e até senhores trabalhando em um tipo de reforma evidenciam isso. Cruza-se portas tapadas por trepadeiras, casas que há muito foram abandonadas. E da solidez do xisto que me cerca por todos os lados surge uma espécie de limite da Aldeia. As casas e ruelas que se amontoavam param em um pátio e dele se vê a vastidão de montanhas à frente de Talasnal.

Aldeias do Xisto se consolidaram durante o período medieval

Dos pés da Aldeia, com vista livre, é que se tem noção de quão afastada do resto do mundo está a comunidade. É desse mesmo ponto também que eu compreendo o resultado de tantas ruelas e tantas paredes levantadas em xisto. Não é preciso se afastar muito para conseguir visualizar Talasnal em sua totalidade (e exuberância), postada no alto da Serra da Lousã, com vista privilegiada daqueles que lá embaixo vivem uma outra realidade (ou que vivem em outro tempo).

Apesar do valor histórico, as Aldeias do Xisto não são museus, parques ou coisa parecida. São vilarejos reais e, por isso, não se cobra entrada para visitá-los. O site da Rede de Aldeias do Xisto reúne sugestões de rotas de visita e até trilhas para aqueles mais ativos. Além da Serra da Lousã, as Aldeias também estão espalhadas pelas regiões de Serra do Açor, Zêzere e Tejo-Ocreza, sempre na macrorregião de Centro de Portugal.

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Renato Machado

Renato é jornalista e encontrou na cobertura do Turismo a junção de grandes prazeres: escrever e conhecer novas culturas e lugares. Agora vive em Napoli, na Itália, e neste espaço irá experimentar na prática tendências e inovações do mercado, além de buscar um olhar menos óbvio de destinos internacionais. No Instagram @Viajante3.0

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