Podemos ou não ter mais estrangeiros ? (parte 1)

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Afinal, por que o Brasil não tem um número maior de visitantes estrangeiros? Vamos fazer alguns posts sobre o tema e adoraríamos ter as opiniões dos profissionais de turismo do país. Nossa conversa não tem cor, não tem julgamento, só busca a melhor compreensão.

Particularmente amo esse debate, porque ele parece simples, mas exige análises de diversos ângulos, depende de fatores ligados diretamente ao turismo e de outros sobre os quais não temos qualquer governança. E sua compreensão e solução, acima de tudo, depende da contribuição de diversos profissionais brasileiros que possuem experiência com o mercado internacional. Afinal, qual o objetivo de fazer esse bate papo? Atrair mais estrangeiros, gerar mais negócios para os que trabalham no setor, gerar empregos; fazer o turismo maior aliado na recuperação da economia nacional.

Vamos parar de fazer comparações esdrúxulas ou repetir versões equivocadas sobre o número de turistas que visitam a Torre Eiffel e o Brasil, ou que visitam a Espanha ou França e o Brasil; não dá para comparar, é preciso entender.


Junto com o debate do número de estrangeiros, é primordial fazer o debate sobre seus gastos nas viagens ao Brasil. Já está mais do que batido relembrar que somente o número de pessoas que chegam não pode ser um indicador de sucesso do turismo, somos nós, profissionais da área que precisamos enfocar esses aspectos. Estão espalhados pelo mundo diversos exemplos de lugares que NÃO QUEREM MAIS TURISTAS, ver sobre overtourism aqui. E ainda tem outro aspecto, os órgãos de turismo pelo planeta afora, e as empresas do setor, usam dados do passado (séries históricas) para entender o movimento temporal dos volumes de visitantes; mas o que vale hoje é antecipar a demanda, usar big data para saber sobre o futuro, planejar e manejar fluxos e comportamentos de visitantes. Na verdade, o Brasil praticamente não tem dados de séries históricas passadas sobre turismo, imagina quanto tempo levaremos para pensar e agir direcionados ao futuro.

Bem, mas aqui vai o debate. Quero iniciar com números, falando do volume de chegadas de estrangeiros ao Brasil, para nos próximos posts, falaremos dos principais temas importantes nesse problema que estamos tentando desvendar. Fui atrás dos dados existentes sobre a chegada de estrangeiros ao Brasil, que segundo o Ministério do Turismo iniciaram a ser compilados em 1989. Eis as informações que considero mais relevantes, lembrando que não vale analisar friamente o aumento de um ano para outro, o turismo trabalha com séries de no mínimo 5 e 10 anos. Números isolados podem ser chatos, mas são a base para começarmos nossa conversa; lembrando ainda, existem números e números…

  • em 1989 o Brasil recebeu 1,4 milhão de turistas e um ano depois, 1990, foi 1,91 milhão, um aumento de 22%
  • em 1995 foram quase 2 milhões
  • no ano 2000 recebemos 5,3 milhões de visitantes, aumento de 165% desde que os dados começaram a ser coletados
  • entre 2005 e 2010, ficamos na faixa dos 5,3 e 5,1 milhões a cada ano, depois começamos a aumentar em média 4% ao ano (2011 a 2013)
  • 2015: 6,3 milhões de turistas
  • 2018: 6,6 milhões de visitantes

Veja a tabela abaixo com os anos, volumes e percentuais de aumento ou diminuição. A elaboração é nossa em diversas fontes como MTUR, OMT.

Se fizermos uma média, desde 1989 até 2018, entre altos e baixos, teremos 16% de crescimento ao ano; no entanto, alguns anos deram saltos de 20%, 22% e até 33%. Outros anos, as quedas foram de 22%, 6% e 1%. A série que analisamos tem curvas ascendentes e descendentes bastante sinuosas, o que terá que nos remeter a uma análise de alguns períodos, como por exemplo: 2006 a Varig deixa de voar, e perdemos milhares de assentos no mercado internacional (-6% de turistas); em 2009 uma grave crise econômica mundial e a H1N1, caímos quase 5%. Em 2014 foi a Copa, crescemos 11%; em 2015 a diminuição de turistas foi quase de 2%. Em 2016 foram os Jogos Olímpicos, crescemos 3,8%.

Conclusão: entre 1989 e 2018 o volume de visitantes cresceu 372%, e entre 2010 e 2018 cresceu 28%. Nos últimos 4 anos crescemos 5%. Sei que são muitos dados, mas isso mostra os altos e baixos de fatores internos e externos que influenciam diretamente nos resultados do turismo do Brasil e de todos os países do mundo.

Para finalizar essa primeira compilação de dados, fizemos uma comparação do crescimento do turismo no mundo, na América do Sul e nos países emergentes no período entre 2010 e 2018. Em alguns anos, o Brasil cresceu muito mais do que a média mundial (2010, 2011, 2012, 2014 e 2016) e nos demais anos do período mencionado, muito menos do que a média mundial. O fato mais relevante nessa comparação mostra que em todo este período o Brasil cresceu menos do que a média da América Latina, isso é um dado preocupante, pois trata-se da maior economia da região com pior desempenho no turismo. Também, com anos de raras exceções, crescemos menos do que a média das economias emergentes.

Você pode nos ajudar a lembrar de fatores que influenciaram esses períodos de altos e baixos ? Tem mais informações para nos ajudar ? Compartilha aqui com a gente. P.S.: todos os textos com link abordam os temas em mais detalhes.

Veja a segunda parte dessa série aqui.

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Jeanine Pires

Professora e empresária, tem 19 anos de experiência em turismo e eventos. Diretora da Pires & Associados e da MATCHER Travel Business.Suas principais atividades são a realização de Planos de Marketing de Destinos Turísticos e palestras no Brasil e no exterior. Presidiu a EMBRATUR de 2006 a 2010, onde também foi Diretora de Turismo de Negócios e Eventos. Liderou o trabalho de promoção do Brasil como destino turístico no exterior, os programas de captação de eventos internacionais e a agenda de promoção do Brasil de 2003 a 2010. Participou da elaboração do Plano Aquarela - Marketing Turístico Internacional do Brasil em 2005 e também coordenou sua versão para 2020. Nos Convention & Visitors Bureaux de Maceió e Recife como diretora executiva, desenvolveu os programas de marketing de lazer e eventos para aquelas cidades entre 1997 a 2002. Esse blog reflete opiniões pessoais e não tem qualquer vínculo institucional

11 thoughts on “Podemos ou não ter mais estrangeiros ? (parte 1)

  1. Boa noite, nesses períodos de queda e ascensão de turistas estrangeiros, deve-se analisar também o dólar, campanhas da EMBRATUR e também a liberação de voos charters internacionais {ano 2000} no país.

  2. Boa tarde Jeanine,tudo bem?
    Seu post e extremamente oportuno neste momento de tantas crises em nossos principais mercados emissores mas, como você mesmo diz, temos que ter uma análise macro e não somente nos remeter ao momento atual.
    Eu li que ,apesar das grandes crises mundiais , o turismo no mundo vem crescendo a cada ano em números mais que expressivos , nos mostrando que algo em nosso processo como país não funciona, aqui vão as minhas humildes idéias sobre isto :
    Trabalho do governo federal sem continuidade , muda o governo ,muda tudo. Vejam o exemplo da Argentina, Peru e México e o número de turistas que recebem ( este é assunto para outro post)
    Escritórios abertos ( logo fechados ) em diversos países com alguns executivos sem preparo nem autonomia.
    Participação em feiras internacionais que viram ” festa ” e não busca de negócios, temos que parar de mostrar o Brasil antigo ( samba e mulatas ) e mostrar os diversos atrativos que nosso país continental tem.
    Governos Estaduais : conta-se nos dedos os estados com campanhas anuais nos países emissores.
    Governos municipais: Idem.
    Produtos : Este já merece um post diferenciado , eu viajo muito e tenho oportunidade de conversar com amigos e colegas de quase todo o Brasil que dizem : se o mercado x caiu não vou mais lá , não tem voo direto não vou visitar , operadora x não me vende mais não vou ,etc, etc.
    Esquecem e isso vale para todas as instâncias : os destinos precisam ser vistos , precisam estar no imaginário do cliente , nossa imagem no exterior ainda é incipiente… E mais ainda quando alguém nos ajuda com notícias ruins
    Precisamos rever a estratégia de marketing ,hoje somos mais virtuais e a identidade de um destino deve ser fortalecida online e em momentos pontuais fisicamente.
    Enfim temos assunto para vários posts

    1. Susana, obrigada pelos teus aportes. Sei de sua experiência de muitos anos em diversos mercados, e você aborda temas de muita relevância. Seguindo em sua linha sobre as crises nos mercados emissores, como estamos sofrendo agora com a Argentina; isso sempre irá ocorrer, e precisamos nos manter firmes nos mercados, estar presentes como você destaca. Mesmo nas estratégias on-line ainda temos muito que avançar. Obrigada, tudo que você traz aqui vamos abordar nos posts seguintes, um abraço, Jeanine.

  3. Os números apresentados em seu artigo têm que ser analisados com muito cuidado, já que o atual presidente da Embratur, Gilson Neto, em entrevista a nós (correspondente do portal de viagens tripseek.news de Portugal) diz o contrário. Segundo o presidente houve o Brasil recebe menos turista hoje, que em 1966. Aproveito para perguntar porque na sua gestão a frente da Embratur os número do fluxo de turistas internacionais foram tão reduzidos? Abaixo passou o link da entrevista do presidente da Embratur.
    https://tripseek.news/2019/08/18/presidente-da-embratur-disse-que-o-brasil-precisa-investir-no-turismo-internacional/

    1. Bom dia Mozart, obrigada pelos comentários. Os dados que apresentamos são da fonte do Ministério do Turismo, não achei dados de antes de 1989. Nosso artigo busca exatamente responder às perguntas que você também coloca, os altos e baixos da série histórica que analisamos em nosso artigo. Queremos saber os fatores que impactaram esses altos e baixos como mencionei, por exemplo, em 2006 a Varig parou de operar e ficamos com mais de uma milhão de assentos internacionais sem funcionar, e isso demorou muito a ser retomado anos depois com a TAP, a TAM e depois as demais empresas.
      No período que estivemos na EMBRATUR tivemos uma estratégia planejada desde 2005 até 2020, que depois foi abandonada pelo meio do caminho. De qualquer forma, saímos em 2003 de 4 milhões para 5 milhões em 2010 (período que fui diretora e presidente), um aumento de 25%. Lembre-se de dois fatos importantes que abalaram o Brasil nesse período, saída da Varig que levou a uma queda de 6,3% de visitantes em 2006 e a grave crise mundial de 2009 que diminuiu quase 5% nossos estrangeiros.
      Mas sabe qual número me orgulho no período em que estivemos na EMBRATUR ? Do aumento dos gastos dos estrangeiros, pois isso é retorno de investimento em promoção, quanto os turistas deixam de divisas, saímos de US$ 2.479 milhões em 2003 para US$ 5.261 milhões em 2010, aumento de 112%! (Nossa, acho que meu próximo artigo já está quase pronto).

      Como entendemos que as políticas de promoção internacional são de longo prazo, considero os resultados desde 2010 a 2015 também são fruto de nosso trabalho e de tantos outros profissionais públicos e privados do turismo. A ultima pesquisa de demanda do MTUR mostra um reconhecimento da Marca Brasil de 34,6%, o que é muito para uma marca turística que só tem 15 anos de investimentos e trabalho.

      Um ótimo debate não é Mozart? Sabe, meu partido é o do turismo, sou uma profissional com 27 anos de trabalho reconhecido e respeitado no mercado, sempre aberta ao debate (meu artigo reflete isso). Não estou disputando quem fez mais ou menos pelo turismo, estou sugerindo que possamos disputar juntos turistas num mercado global super competitivo e aonde o Brasil ainda tem muito a fazer (independente de quem está de plantão na EMBRATUR ou no MTUR). Estou na torcida para que o Presidente Gilson faça um ótimo trabalho e possa ajudar na vinda de mais visitantes, fazendo também com que eles gastem mais. Obrigada, abs

  4. Em 2001 tivemos os ataques de 11 de Setembro nos EUA, o que geraram muitos cancelamentos do mundo inteiro na temporada que se iniciava( na época de Agosto à Março do ano seguinte ), comprometendo nossa retenção de reservas.

    1. Bem lembrado Gustavo, os impactos foram imensuráveis pelo mundo todo e ainda geraram uma série de questões relacionadas à segurança de voos que perduram até hoje.Obrigada, abs

  5. Análise muito boa e detalhada, mas a conclusão segue a mesma.
    Números vergonhosos!!!
    Líderes do nosso trade há anos os mesmos, logo os resultados são os mesmos.
    Muito blá blá blá e pouca ação realmente efetiva.

    1. Arnaldo, acredito que novas lideranças são essenciais para termos inovação e mais resultados. Precisamos agir mais, nós, empresários, fazer a nossa parte e cobrar das lideranças públicas que façam a sua parte, sempre em parcerias. Acredito muito no turismo, por favor dá uma olhada no último post que fiz sobre a importância do turismo em nossa economia (mesmo ainda não sendo o que desejamos). Obrigada.

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